O que uma imersão de um dia entre founders, investidores e especialistas revelou sobre tecnologia, crescimento, liderança e o papel do smart money.
O Carnaval passou. As conversas ficaram.
Em fevereiro, enquanto boa parte do Brasil estava no ritmo do Carnaval, reunimos um grupo de empreendedores, investidores e especialistas para uma experiência um pouco diferente.
Chamamos de CarnaThon.
A proposta era simples: dedicar um dia inteiro a compartilhar experiências reais de quem está construindo, investindo e enfrentando os desafios de fazer startups crescerem.
O encontro nasceu da proximidade entre a Kadmotek, Frank Fujisawa e nossos ecossistemas de investidas. Queríamos criar um ambiente em que founders pudessem aprender uns com os outros, sem a formalidade dos grandes eventos e, principalmente, sem aquela sequência interminável de pitches em que todos apresentam empresas extraordinárias, mercados bilionários e projeções que raramente sobrevivem ao primeiro contato com a realidade.
Foram oito palestras, diferentes perspectivas e muitas conversas que continuaram depois do evento.
E uma coisa me chamou a atenção: embora os temas parecessem independentes, todos acabavam se conectando.
O CarnaThon não ficou restrito àquele encontro.
Ao longo dos últimos meses, publicamos cortes das oito palestras, compartilhamos momentos do evento e aprofundamos cada uma das apresentações em oito artigos no KadBlog.
Foi uma maneira de ampliar o alcance das conversas e permitir que pessoas que não estiveram presentes também tivessem acesso a esse conhecimento.
Agora, olhando para o conjunto, percebo que construímos algo próximo de uma pequena trilha de aceleração para startups.
Não substitui uma aceleradora, nem pretende fazer isso. Mas reúne uma parte importante das perguntas que um founder precisa enfrentar quando decide transformar uma ideia em uma empresa de verdade.
E talvez a melhor maneira de encerrar essa série seja justamente conectar essas perguntas.
Ter um bom produto não significa ter um negócio
A primeira conexão apareceu nas conversas sobre crescimento.
Diego Pereira, da Cadê Guincho, trouxe a experiência de construir alianças estratégicas em mercados tradicionais. Sua trajetória mostrou que a tecnologia pode resolver um problema importante, mas isso não garante que os grandes clientes estejam dispostos a abrir suas portas.
Credibilidade, relacionamento e distribuição continuam fazendo diferença.
Alysson Guimarães, da LeverPro, abordou o mesmo desafio por outra perspectiva: Go-To-Market.
Se Diego mostrou como alianças podem abrir mercados, Alysson trouxe a disciplina necessária para transformar oportunidades comerciais em tração consistente. ICP, canais, proposta de valor, métricas e processos.
São abordagens complementares.
De um lado, conseguir entrar. Do outro, construir uma operação comercial capaz de crescer sem depender exclusivamente da habilidade de vender do founder.
Parece básico.
Mas quantas startups continuam investindo em funcionalidades enquanto ainda não descobriram como conquistar clientes de maneira repetível?
Essa é uma pergunta que faço com frequência nas avaliações de investimento.
E as duas palestras reforçaram uma convicção: o melhor produto nem sempre constrói a melhor empresa.
A tecnologia mudou. A responsabilidade do founder, não.
Aurélio Araújo, da Leadfy, trouxe um desafio que se tornou praticamente inevitável em 2026: como um founder não técnico pode liderar uma empresa em um ambiente cada vez mais dominado pela inteligência artificial?
A resposta dele foi desconfortável para quem acredita que basta contratar especialistas e delegar o assunto.
O founder não precisa necessariamente programar. Mas precisa compreender o suficiente para questionar, priorizar e liderar as decisões que vão transformar seu negócio.
Acompanhei esse movimento de perto com a Leide Maia, cofundadora da Maia. Ela foi buscar entender o que significa um modelo AI-First e passou a aplicá-lo cada vez mais na operação, para apoiar a equipe de professores na construção de material acessível. A IA não substituiu o conhecimento pedagógico do time. Ampliou o alcance dele.
Essa discussão encontrou eco na palestra de João Paulo Cruz, sobre Founder Mindset.
João Paulo trouxe uma reflexão que considero especialmente importante: o perfil necessário para tirar uma startup do chão não é necessariamente o mesmo exigido para levá-la à escala.
No começo, o founder faz quase tudo.
Depois, precisa construir processos, formar lideranças, delegar e aprender a deixar outras pessoas executarem.
Aqui existe um paradoxo interessante.
Ao mesmo tempo que a inteligência artificial exige que o founder se aproxime de novos conhecimentos, o crescimento da empresa exige que ele se afaste de parte da execução.
O desafio não é fazer tudo. É saber o suficiente para liderar aquilo que não pode mais fazer sozinho.
E isso exige uma maturidade que nenhum modelo de inteligência artificial entrega automaticamente.
Crescer exige decisões melhores, não apenas mais rápidas
Foi ouvindo Fernando Barrichelo, da Reason Hub, que essa conexão ganhou outra dimensão para mim.
Sua palestra não tratava de produto, tecnologia ou vendas. Tratava de decisões.
Vieses cognitivos, julgamento executivo e a dificuldade que temos de reconhecer quando nossas próprias convicções estão erradas.
Ao longo da minha trajetória como empreendedor e, mais recentemente, como investidor e conselheiro, participei de inúmeras discussões em que havia pessoas inteligentes, informações disponíveis e boas intenções.
Nem por isso todas as decisões foram boas.
O aprendizado que ficou daquela palestra foi que a qualidade das decisões precisa fazer parte da cultura de uma empresa.
E essa reflexão volta ao desafio apresentado por João Paulo: delegar não significa apenas distribuir tarefas, mas desenvolver pessoas capazes de decidir.
Vale também para o Go-To-Market de Alysson. Afinal, selecionar um ICP, abandonar um canal que não funciona ou aceitar perder determinados clientes exige decisões que muitas vezes contrariam o instinto do founder.
Talvez uma das funções mais importantes de um investidor-operador seja justamente ajudar o empreendedor a fazer perguntas que ele preferiria não ouvir.
Inclusive quando a resposta contraria a nossa própria opinião como investidor.
Governança não é assunto para quando a startup ficar grande
Carlos Augusto de Oliveira, o Carlão, trouxe ao CarnaThon uma perspectiva que conheço bem depois de décadas trabalhando com tecnologia para o sistema financeiro: a relação entre inovação e regulação.
Existe uma visão recorrente de que governança, compliance e controles são preocupações para empresas maduras.
Mas, especialmente nas fintechs, certas decisões tomadas no início podem determinar se um negócio terá condições de crescer ou ficará preso a riscos que não consegue administrar.
A palestra de Carlão mostrou como inovação e responsabilidade precisam evoluir juntas.
Essa discussão encontrou um complemento importante na experiência de Cláudia Rosa, que compartilhou dez anos de aprendizado como investidora-anjo.
Cláudia trouxe uma reflexão sobre a figura do founder super-herói: aquele que constrói, vende, decide, contrata e acredita que precisa estar presente em todas as etapas.
Pode funcionar durante algum tempo. Mas dificilmente sustenta uma empresa escalável.
O desafio passa a ser construir um time, desenvolver lideranças e estabelecer uma relação madura com investidores e conselheiros.
As duas conversas, embora viessem de universos diferentes, apontavam para a mesma direção.
Governança não é simplesmente criar regras. É desenvolver uma organização capaz de continuar tomando decisões responsáveis à medida que ganha complexidade.
E qual é o limite da nossa ambição?
Coube a mim encerrar as palestras com uma inquietação que venho carregando desde minha primeira viagem ao Vale do Silício, em 2021.
Por que tantas startups brasileiras continuam pensando apenas no tamanho do mercado doméstico?
Não é uma crítica à qualidade dos nossos empreendedores. Muito pelo contrário.
Conhecemos profundamente problemas que existem em poucos lugares do mundo. Desenvolvemos soluções sofisticadas, especialmente no sistema financeiro, e contamos com profissionais extraordinários.
Mas tenho aprendido, principalmente na convivência com founders e investidores fora do Brasil, que o nosso repertório também pode limitar aquilo que conseguimos imaginar.
E não estou falando apenas dos founders.
Durante muito tempo, eu também enxerguei oportunidades com uma régua essencialmente brasileira.
Investir na Flourish Fi, acompanhar tão de perto a Quadra, conhecer outros ecossistemas e conviver com empreendedores que pensam em mercados globais transformaram minha visão.
Não significa que toda startup deva internacionalizar suas operações.
Significa que essa possibilidade deveria ser considerada antes de concluirmos que o nosso mercado é suficiente.
E, olhando agora para as oito palestras, fica claro que a ambição global não se sustenta isoladamente.
Uma startup não se torna global apenas porque abriu uma empresa fora do Brasil, preparou um pitch em inglês ou começou a precificar em dólares.
Ela precisa construir produto, distribuição, capacidade de execução, liderança, governança e qualidade de decisão.
Exatamente os temas que atravessaram o CarnaThon.
O que eu aprendi sobre smart money naquele dia
Quando começamos a organizar o CarnaThon, nosso objetivo era aproximar pessoas e compartilhar experiências que poderiam ajudar as empresas do nosso ecossistema.
Mas, em retrospecto, o próprio encontro representou uma parte importante daquilo que buscamos praticar como investidores-operadores.
O aporte de capital é uma etapa do investimento.
A construção de valor acontece durante uma jornada muito mais longa.
E ela depende de convivência, confiança, conexões e da capacidade de reconhecer quando a experiência de uma pessoa pode ajudar outra a evitar erros ou encontrar novos caminhos.
O investimento quase sempre chega depois. Primeiro vem a convivência.
O CarnaThon foi, para mim, a forma mais concreta de praticar isso.
Uma boa conversa entre founders pode antecipar uma decisão que levaria meses para amadurecer.
Um relacionamento pode abrir uma porta comercial.
Uma pergunta feita por alguém de fora pode revelar uma fragilidade que o time já não conseguia enxergar.
Não estou sugerindo que um dia de palestras substitua meses de aceleração, mentoria ou trabalho dentro de uma startup.
Mas acredito que conseguimos demonstrar algo importante: conhecimento acumulado em um ecossistema pode produzir muito mais valor quando circula do que quando permanece restrito à experiência individual de cada empreendedor.
Uma imersão que continua disponível
Quem participou do CarnaThon acompanhou essas discussões em um único dia.
Para quem não esteve presente, organizamos os aprendizados em oito artigos, que podem ser lidos de forma independente ou como uma trilha de desenvolvimento para founders. Todos estão listados ao final deste texto, com os links para as palestras em vídeo.
Minha sugestão para quem está construindo uma startup é simples: não leia apenas o conteúdo que parece resolver sua dificuldade atual.
O founder preocupado com vendas talvez precise refletir sobre liderança.
Aquele que está buscando capital talvez deva olhar primeiro para sua governança.
E quem acredita ter encontrado um produto extraordinário pode descobrir que seu maior desafio não é tecnológico.
São essas conexões que tornam a experiência interessante.
O CarnaThon terminou. E agora?
Quando olho para trás, não penso apenas nas oito palestras.
Penso nas pessoas que aceitaram compartilhar suas experiências, nos founders que dedicaram um dia ao aprendizado e nas conversas que surgiram entre empreendedores de diferentes trajetórias.
Ao Frank Fujisawa, aos palestrantes, aos participantes e a todos que contribuíram para realizar esse encontro, fica meu agradecimento.
Ao longo desses meses, tivemos a oportunidade de registrar e aprofundar discussões que poderiam ter terminado naquele dia.
E considero que esse foi um resultado importante.
O CarnaThon nasceu como uma experiência de troca entre pessoas próximas. A série de artigos permitiu levar parte desse conhecimento para além da sala onde nos reunimos.
E não pretendemos parar por aqui.
O próximo CarnaThon já está sendo preparado, em um formato menor, pensado para aprofundar as trocas entre founders. Em breve compartilhamos os detalhes.
Porque smart money não é apenas estar presente na hora do investimento. É também criar ambientes onde experiências possam ser compartilhadas, perguntas difíceis sejam feitas e novas oportunidades surjam dessas conexões.
Depois de tantos anos empreendendo e investindo, sigo convencido de que boas empresas não são construídas apenas com capital, tecnologia e planos de negócios.
São construídas por pessoas capazes de aprender, decidir, executar e, principalmente, evoluir.
E deixo uma última provocação, para encerrar essa série:
Se oito conversas em um único dia foram suficientes para questionar tantas certezas, quanto conhecimento estamos desperdiçando ao tentar construir nossas startups cada um por conta própria?
Principais aprendizados
- Ter um bom produto não significa ter um negócio: alianças abrem portas, e Go-To-Market transforma oportunidade em tração repetível.
- Com a IA, o founder não precisa programar, mas precisa entender o suficiente para liderar aquilo que não pode mais fazer sozinho.
- Crescer exige decisões melhores, não apenas mais rápidas: a qualidade do julgamento precisa fazer parte da cultura da empresa.
- Governança não é assunto para quando a startup ficar grande: decisões tomadas cedo definem os riscos que a empresa conseguirá administrar.
- A ambição global só se sustenta sobre produto, distribuição, liderança, governança e qualidade de decisão.
- Smart money começa antes do cheque: conhecimento gera mais valor quando circula entre founders do que quando fica restrito a cada um.
Perguntas frequentes
Estou com um problema específico. Por onde começo a trilha do CarnaThon?
Comece pelo artigo que parece resolver o seu problema, mas não pare nele. Os temas se cruzam: dificuldade em vendas muitas vezes é um problema de liderança, e quem busca capital costuma precisar olhar antes para a governança.
Um founder não técnico precisa aprender IA para liderar uma empresa AI-First?
Não precisa programar, mas precisa entender o suficiente para questionar, priorizar e decidir. O que não dá é delegar o assunto inteiro e esperar que a transformação aconteça sozinha.
Quando uma startup deve começar a se preocupar com governança?
Antes do que a maioria imagina, especialmente em fintechs. Certas decisões tomadas no início definem os riscos que a empresa vai conseguir administrar quando crescer. Governança não é criar regras, é manter a qualidade das decisões à medida que a empresa ganha complexidade.
O que um investidor-operador oferece além do capital?
Convivência, conexões e perguntas que o founder preferiria não ouvir. O aporte é uma etapa. A construção de valor acontece ao longo de uma jornada muito mais longa, e depende de experiência que circula entre pessoas.
A trilha completa do CarnaThon
- Diego Pereira — Alianças Estratégicas: como parcerias ajudam startups a crescer em mercados tradicionais. Cortes no canal.
- Aurélio Araújo — IA-First: o papel do founder não técnico na transformação da empresa. Cortes no canal.
- Alysson Guimarães — Go-To-Market: como transformar tração em um processo previsível. Vídeo.
- Fernando Barrichelo — Decisões: vieses cognitivos, método e qualidade do julgamento executivo. Vídeo.
- João Paulo Cruz — Founder Mindset: da execução artesanal à liderança escalável. Vídeo.
- Carlos Augusto de Oliveira — Regulação: inovação, responsabilidade e governança no mercado financeiro. Vídeo.
- Cláudia Rosa — Investimento-Anjo: a evolução do founder e a construção de times. Cortes da palestra.
- Gilberto Albuquerque — Ambição Global: por que uma startup brasileira não precisa limitar seu horizonte ao mercado doméstico. Vídeo.
Os cortes das palestras no YouTube da Kadmotek mostram de onde nasceram estas reflexões. E os próximos conteúdos, incluindo as novidades do próximo CarnaThon, seguem no KadBlog.



