Regulação e Inovação: o novo jogo do sistema financeiro em 2026

Regulação e Inovação: o novo jogo do sistema financeiro em 2026

Por que a próxima fronteira das fintechs não é tecnológica, mas a maturidade de governança de quem decide crescer com responsabilidade

No mundo das fintechs existe uma tensão permanente.

Como inovar sem quebrar o sistema?

É exatamente esse o equilíbrio mais difícil de sustentar: inovação de um lado, regulação do outro.

Durante o Carnathon, entre tantas conversas sobre produto, crescimento e tecnologia, pedi ao Carlos Augusto de Oliveira, o Carlão — diretor da ABFintechs e um dos executivos convidados por Henrique Meirelles para construir o Banco Original —, que falasse sobre um assunto que quase ninguém escolhe abordar espontaneamente: a agenda regulatória da indústria financeira. Como fintech é a principal tese da Kadmotek, esse é um tema que acompanho de perto, e que considero decisivo para qualquer founder ou investidor que se relacione, direta ou indiretamente, com o sistema financeiro.

Ele começou brincando que eu tinha pedido para ele falar de “um assunto chato”. A palestra provou o contrário. Poucas vezes vi alguém traduzir com tanta clareza como a regulação, longe de ser apenas um freio, pode ser o motor que cria mercados inteiros, e ao mesmo tempo o risco que faz empresas promissoras pararem no meio do caminho.

Vale registrar essa credencial, que ele não menciona muito mas: o Banco Original foi pioneiro na abertura de conta 100% pelo celular no Brasil, com ganhos expressivos em prevenção a fraude, e o Carlão participou de forma ativa na época junto aos reguladores.

Regulação não é só restrição: muitas vezes ela cria o mercado

Ninguém gosta de regulação. Ninguém gosta de regras adicionais, de mais exigências, de mais burocracia. E, no entanto, como o Carlão argumentou, a regulação é de suma importância por uma razão simples: ela dá confiança aos participantes.

Quando existem regras claras e simétricas, eu sei que meu concorrente vai jogar pelas mesmas regras. Competimos de igual para igual. No caso específico da regulação bancária, há camadas adicionais, como controlar risco sistêmico, proteger o cliente, evitar lavagem de dinheiro e promover concorrência.

E é aqui que entra o ponto contraintuitivo: uma boa regulação estimula a inovação. Porque o empreendedor que olha para um mercado com regras claras tem confiança de que aquilo é a regra do jogo, e isso atrai novos participantes.

O desafio, claro, é de calibragem. A regulação precisa ser suficiente para proteger o mercado de abusos e excessos, mas não a ponto de sufocar a inovação. Esse é o segredo. E, como o próprio Carlão reconheceu, no Brasil isso nem sempre acontece. Mas, na indústria financeira, temos talvez um dos melhores exemplos dos últimos anos de como fazer certo.

Duas formas de errar na calibragem regulatória

  • Regulação insuficiente: abre espaço para abusos, fraudes e risco sistêmico — a confiança do mercado desaba.
  • Regulação excessiva: sufoca a inovação, encarece a operação e afasta novos entrantes do jogo.

A Agenda BC# e o modelo de cocriação

O exemplo que o Carlão trouxe foi a agenda de inovação do Banco Central, a Agenda BC#, que, segundo ele, representa uma transformação enorme concentrada em cerca de uma década. Um intervalo curto para uma mudança tão profunda.

A estratégia tinha um objetivo claro: aumentar eficiência, inclusão e modernizar a estrutura para gerar competição. Para isso, era preciso simplificar o mercado e permitir inovação.

Mas o mais interessante foi como o regulador conduziu isso. O Banco Central percebeu algo que poucos reguladores admitem: é impossível acompanhar o ritmo da evolução tecnológica. Ninguém consegue, e o exemplo da IA torna isso óbvio. Diante dessa constatação, em vez de ser determinístico e dizer aos agentes exatamente como fazer, o regulador optou por dizer o que precisa ser feito, deixando o como em aberto, porque a tecnologia inevitavelmente mudaria. E se comprometeu a monitorar os excessos.

Com isso, criou-se um raro modelo de cocriação. Talvez o único caso no Brasil em que se diz que o regulador “promoveu inovação”, quando, na verdade, o que ele fez foi trabalhar junto com o mercado: ouvir, extrair as melhores ideias e evoluir a partir delas.

Ali, ele não fala de fora: o Carlão participou, desde o início, dos grupos de trabalho que desenharam o Pix dentro do Banco Central — viveu a cocriação por dentro, não como espectador.

O resultado todos nós vivemos: o Pix, o Open Finance e uma verdadeira explosão de fintechs criadas graças a essa agenda. A digitalização avançou rápido, as plataformas digitais ganharam adesão, os preços caíram e a concentração do mercado diminuiu. Os incumbentes perderam espaço e novos entrantes cresceram.

Regulação bem calibrada não é o oposto da inovação. Às vezes, é a condição para que ela aconteça.

O outro lado do ciclo: quando o regulador começa a apertar

Aqui a palestra ganhou o tom que, como investidor, considero o mais valioso, porque olha para frente, não para trás.

O Carlão descreveu um ciclo que todo founder e todo investidor precisa enxergar. O Banco Central abriu a porta, flexibilizou, criou modelos mais leves, acelerou o mercado. E então, inevitavelmente, começou a apertar a regulação.

E ele fez uma analogia que sintetiza tudo: é exatamente o que acontece em qualquer empresa.

Quando você começa, seu foco número um é trazer cliente. Você estrutura o MVP, valida o produto, busca tração. Compliance? Deveria estar no radar, mas não é a prioridade. Com volume pequeno, você resolve tudo na mão e cobre a maior parte dos casos. O problema é que, à medida que você cresce, isso vira uma bola de neve. Se as exigências não aumentam de forma gradual, e se a responsabilidade e o monitoramento não acompanham o crescimento da operação, uma hora você perde o controle.

Foi precisamente isso que o Banco Central fez em Pix, Open Finance e nos demais processos. Ia tudo bem, até que o crescimento se tornou grande demais. Hoje são milhares de fintechs, milhares de transações, processos complexos de compartilhamento de dados. E, como na nossa própria casa, o orçamento não cresce na mesma proporção da operação. Crescer é ótimo, escalar, explodir. Mas se a estrutura de compliance não acompanha, os problemas aparecem.

Foi o que aconteceu: descumprimentos regulatórios de vários tipos, exigências não cobertas, empresas pequenas que ficaram grandes rápido demais. O estímulo que fazia sentido no começo deixou de fazer. E o regulador precisou frear.

Cyber deixou de ser problema do cliente: passou a ser da sua operação

Uma das consequências mais duras desse ciclo foi o tema cibernético. E aqui o Carlão foi enfático: ninguém escapa.

Não importa o setor. Se você transaciona fluxos financeiros, e toda empresa, de alguma forma, paga e recebe, você está exposto. Ransomware e outras técnicas hoje conseguem, literalmente, sequestrar uma empresa. E o risco não é linear: na medida em que você cresce, ele aumenta exponencialmente.

Ele apontou uma mudança de padrão que merece atenção de todos. Antigamente, o ataque cibernético mirava o cliente, enganava o usuário final, explorava a ponta mais vulnerável. Hoje, o maior volume de ataques mira as próprias instalações das empresas, seus parceiros e provedores de serviço. Os atacantes mapeiam o negócio, identificam o ponto frágil da cadeia e entram por ali, nem sempre pela empresa diretamente.

É por isso que compliance é muito mais do que regulação. Compliance é se preocupar com todo o seu ambiente e reconhecer que qualquer ponto de falha, inclusive em um fornecedor, pode te atingir. O número de incidentes reportados ao Banco Central cresceu de forma expressiva ano após ano, e isso reflete um mundo cada vez mais integrado: nuvem, múltiplos canais, parceiros conectados de forma permanente e online.

O que muda para quem investe e para quem empreende

Para os investidores, e o Carlão fez questão de apontar isso diretamente, há uma consequência concreta e recente. As exigências de capital para instituições financeiras aumentaram de forma significativa, tema que ele detalhou em profundidade no artigo Os impactos das recentes medidas do Bacen “contra” as fintechs. Mais patrimônio exigido significa mais dinheiro parado, menor rentabilidade e um negócio mais caro de operar.

Para negócios em estágio inicial, isso é especialmente sensível: ficou mais difícil e mais caro atrair capital para empreender na indústria financeira ou em qualquer negócio que se relacione com ela. Os valuations são afetados. É um custo que precisa entrar na conta desde o início, porque não há como fugir. É o preço de se proteger.

A mensagem final dele foi direta: acabou a fase de berçário. Aquele período em que “podia tudo” ficou para trás. A barra subiu, e o foco agora precisa ser governança. Isso vale para qualquer empresa que cresceu. Faturando 10, 20, 30 milhões, você não pode mais presumir que passará despercebido. Falhas de governança serão detectadas.

Fase de berçário x nova régua

  • Antes: prioridade era tração, compliance ficava para depois, e passar despercebido era possível.
  • Agora: a prioridade é governança — empresas faturando dezenas de milhões não escapam mais do radar, e falhas serão detectadas.

O velho mantra de “errar rápido” pede cautela quando há regulação envolvida. Não é que a inovação tenha acabado, pois a porta continua aberta. Mas ela exige, agora, uma pergunta permanente: qual é o tamanho do risco que estou correndo, e o que eu afeto se cometer um erro?

Compliance by design: a governança como ponto de partida

Para fechar, o Carlão trouxe a tendência que, para mim, resume a nova régua do mercado: compliance by design.

A ideia não é começar perfeito, e ele foi claro sobre isso. É ter, desde o início, uma visão de compliance: saber exatamente o que você está administrando, qual risco está correndo, e fazer esse monitoramento crescer junto com a operação. À medida que você ganha parceiros, interfaces e entra em novas regulações, a complexidade aumenta, e a governança precisa evoluir no mesmo ritmo.

Isso traz decisões estratégicas novas. Uma delas: será que vale carregar toda essa complexidade operacional? Às vezes, um portfólio específico pesa muito em regulação e exigência de capital sem agregar valor proporcional. Pode fazer mais sentido terceirizar, ou entregar a um parceiro, para simplificar a operação e reduzir o peso regulatório.

E ele deixou um alerta que subscrevo integralmente: a agenda cyber não vai parar. Quem hoje não tem uma boa estrutura de prevenção deveria estar preocupado. Não é só o Banco Central. Há a LGPD e diversas obrigações de reportar incidentes, tornar público, avisar o cliente. E aqui o dano vai além do financeiro: é reputacional.

Curiosamente, é nesse mesmo movimento que nascem oportunidades. O mercado de cibersegurança está em plena expansão. E, no caos que se instaura, especialmente na indústria financeira, sempre surgem novas frentes: M&As, novas parcerias, novas formas de atuar. O importante é entender para onde a mudança está indo e se reposicionar a tempo.

A inovação continua, com responsabilidade

Foi essa a síntese que levei da palestra do Carlão.

A regulação vai, sim, reduzir um pouco o ritmo de novas iniciativas na indústria financeira. Disso ele não tem dúvida, e eu também não. Mas isso não é o fim da inovação. É o amadurecimento dela.

O jogo ficou mais profissional. Não dá mais para começar de qualquer maneira, sem estrutura, sem uma visão de risco. Mas, para quem entende essa nova régua e constrói governança desde o primeiro dia, a porta segue aberta.

Como investidor de fintechs, essa é a lente que passei a aplicar com ainda mais rigor. Antes de olhar a tecnologia ou o tamanho do mercado, olho para a maturidade da estrutura, se ela tem condições de crescer sob um regulatório mais exigente. Porque, no fim, o que separa a fintech que escala da que trava não é a ideia. É a capacidade de crescer com responsabilidade.

Já explorei essa mesma lógica, a de que governança deixou de ser diferencial para virar pré-requisito, em como founders podem tomar decisões melhores e ao revisitar nossa própria trajetória de investimento em Capital em Movimento.

Os cortes da palestra de Carlos Augusto de Oliveira aprofundam cada um desses pontos, com os dados que ele apresentou ao vivo. Estão publicados no canal da Kadmotek no YouTube.

E fica a provocação:

Você está construindo uma empresa que apenas cresce rápido, ou uma que cresce preparada para o momento em que a régua subir?

Perguntas frequentes

Regulação atrapalha ou estimula a inovação nas fintechs?

Depende da calibragem. Uma regulação bem equilibrada dá confiança aos participantes, cria regras simétricas e atrai novos entrantes, o que estimula a inovação. O risco está nos extremos: regulação insuficiente permite abusos; regulação excessiva sufoca a inovação. O caso da Agenda BC# no Brasil é um exemplo de equilíbrio que criou mercados inteiros.

O que é a Agenda BC# e por que ela é relevante?

É a agenda de inovação do Banco Central voltada a aumentar eficiência, inclusão e competição no sistema financeiro. Sua marca foi o modelo de cocriação: em vez de determinar como as empresas devem agir, o regulador definiu o que precisa ser cumprido e passou a monitorar excessos. Dela nasceram o Pix, o Open Finance e uma explosão de novas fintechs.

Por que compliance importa mesmo para uma fintech pequena?

Porque o risco cresce exponencialmente com a operação. No começo, dá para resolver tudo na mão; conforme a empresa escala, a ausência de estrutura vira uma bola de neve. Compliance precisa estar na mentalidade do founder desde o início. Não é porque existe a oportunidade de fazer um negócio que ele deve ser feito.

O que é “compliance by design”?

É a ideia de incorporar uma visão de compliance desde o início da operação. Não se trata de começar perfeito, mas de saber exatamente o que se está administrando, qual risco se corre, e fazer o monitoramento crescer junto com a empresa. À medida que surgem parceiros, interfaces e novas regulações, a governança evolui no mesmo ritmo.

O que muda para quem investe em fintechs com as novas exigências?

As exigências de capital para instituições financeiras aumentaram de forma relevante, o que significa mais patrimônio parado, menor rentabilidade e negócios mais caros de operar. Isso afeta especialmente estágios iniciais e pressiona valuations. Por isso, a maturidade de governança passou a ser um critério central de análise de investimento.

Principais aprendizados

  • Regulação não é apenas restrição: quando bem calibrada, gera confiança, cria mercados e estimula a inovação, como demonstrou a Agenda BC#.
  • O modelo de cocriação do Banco Central, que define “o que” e não “como” e monitora excessos, foi o que permitiu a explosão de fintechs no Brasil.
  • Todo ciclo regulatório e empresarial alterna abertura e aperto; o founder precisa aumentar compliance de forma gradual, no ritmo do próprio crescimento.
  • Cyber deixou de ser problema do cliente: o alvo hoje são as instalações, parceiros e provedores, e o risco cresce exponencialmente com a escala.
  • Acabou a fase de berçário: a nova régua é governança, e a inovação continua possível para quem cresce com responsabilidade e compliance by design.

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