Bitshopp: o “não” que virou “sim” na Kadmotek

Bitshopp: o “não” que virou “sim” na Kadmotek

Bastidores da Tese Kadmotek — Capítulo 4: Bitshopp

Nos capítulos anteriores desta série, contei sobre investimentos que nasceram da convivência: a Leadfy, ao longo de quase três anos; a Maia, ao longo de quinze; a LeverPro, de um assento no conselho que virou sociedade. Este capítulo é sobre algo diferente. É sobre um investimento que começou com uma recusa.

Porque nem toda boa decisão de investimento é um sim. Às vezes, a decisão certa, no momento certo, é dizer não. E o que se faz depois desse não é o que revela tanto sobre o founder quanto sobre o investidor.

Essa é a história da Bitshopp. E, principalmente, a história dos três anos que separaram o meu “não” do meu “sim”.

Quando a tese encontrou a tecnologia certa

Em 2022, minha convicção sobre investir em Web3 já estava consolidada. Não era mais uma curiosidade. Era tese.

A Bitshopp foi uma das primeiras empresas que avaliei nesse segmento. E o que ela oferecia conversava exatamente com o que eu buscava: uma infraestrutura de blockchain as a service, que já ajudava algumas tokenizadoras menores a avançar com seus produtos, fornecendo a tecnologia por trás delas.

Era, no papel, um encaixe quase perfeito entre a minha tese e a proposta da empresa. Foram meses de conversas, reuniões, pitches, tentativas de trazer investidores. Um namoro sério.

E, ainda assim, depois de toda a avaliação, a Kadmotek disse não.

O não também faz parte da tese

Preciso me deter nesse ponto, porque ele é, talvez, o mais importante deste capítulo.

Dizer não a uma empresa que conversa com a sua tese é uma das decisões mais difíceis de um investidor. É mais fácil se empolgar com um bom encaixe narrativo do que reconhecer que o momento ainda não é o momento. Mas disciplina de investimento é exatamente isso: aceitar que uma boa empresa e um bom investimento nem sempre coincidem no calendário.

Naquele momento, pela minha avaliação, o investimento na Bitshopp ainda não fazia sentido. E eu disse isso com franqueza.

O que eu não sabia, em 2022, é que aquele não seria apenas o começo da história, e não o seu fim.

Três anos observando um founder no mar aberto

Depois do não, algo continuou. E é justamente esse “algo que continua” que atravessa toda esta série.

Durante os três anos seguintes, segui encontrando Marcos Mocatino, o founder da Bitshopp, nos eventos de Web3. Sempre conversando, sempre mantendo uma boa relação. Eu não era investidor da empresa, mas continuava, à minha maneira, acompanhando a jornada dele.

E foi um período que colocou o mercado de tokenização à prova. Muita gente fala da tokenização como o mercado do futuro. Poucos falam de como é difícil o presente. A entrada não é simples. Fazer projetos não é simples. Você precisa, antes de vender, educar empresas a mudarem a forma como operam suas categorias de investimento. É um mercado que exige do founder não apenas tecnologia, mas a paciência de evangelizar quem ainda nem sabe que precisa da solução.

Foi nesse mar desafiador que observei o Mocatino navegar. E ele navegou bem.

No meio dessa jornada, a Bitshopp recebeu o investimento da Evox Global, liderada por Gilmar Batistela, um empreendedor que vinha do sistema financeiro e que eu já conhecia. Cada um desses movimentos foi, à distância, reforçando a minha relação com a empresa e com o founder.

A resiliência que se prova em contrato

O que mudou entre o não de 2022 e o sim de 2025 não foi a minha tese. Foi a maturidade da empresa, e a prova concreta de que aquele founder era capaz de entregar.

Porque, no intervalo em que a Kadmotek ficou de fora, o Mocatino não parou. Ele conquistou dois marcos que dizem muito sobre a solidez do que estava construindo:

Os dois marcos que separaram o não do sim

Pare um instante para dimensionar isso. Uma startup de tokenização, em um mercado que ainda estava aprendendo a existir, colocando sua tecnologia dentro de projetos dessa magnitude. Não é validação de discurso. É validação de mercado, do tipo mais difícil de conquistar.

Foi aí que, em 2025, no movimento de captação da Bitshopp, fui procurado novamente. E, desta vez, a leitura era outra. A empresa estava mais madura. O founder havia provado, ao longo de três anos, exatamente aquilo que uma planilha não mostra: resiliência.

Reconheci que ali estava um founder que, apesar do meu não em 2022, seguiu firme, liderou no mar aberto e transformou uma promessa tecnológica em contratos reais. Naquele momento, o sim fazia todo o sentido.

Por que o tempo foi o melhor analista

Existe uma leitura mais profunda nessa história, e ela vale para muito além da Bitshopp.

Quando avaliei a empresa em 2022, eu estava analisando um potencial. Quando reavaliei em 2025, estava analisando uma trajetória. E trajetória é uma informação que nenhuma diligência antecipa: ela só se revela com o tempo.

O não de 2022 não foi um erro que corrigi em 2025. Foi parte do mesmo processo.

Se eu tivesse investido cedo demais, teria apostado em uma hipótese. Ao investir depois, apostei em uma comprovação.

O intervalo entre os dois momentos foi, ele próprio, a diligência mais valiosa que eu poderia ter feito, porque foi o tempo que separou a promessa da entrega.

Isso não significa que investir cedo seja errado. Significa que, em mercados ainda imaturos como o de tokenização, às vezes o maior valor que um investidor pode ter é a disciplina de esperar a empresa encontrar a própria força, sem deixar de acompanhá-la enquanto isso acontece.

O que a Bitshopp confirma na tese da Kadmotek

Cada capítulo desta série registrou uma evolução na minha forma de investir. Com a Leadfy, aprendi a enxergar os ativos invisíveis. Com a Maia, entendi que conhecimento validado pode virar infraestrutura. Com a LeverPro, que profundidade de produto pode vencer tamanho.

A Bitshopp confirma uma convicção sobre o próprio tempo do investimento: persistência do founder, entrega concreta e validação de mercado são um conjunto, e esse conjunto raramente aparece de uma vez. Ele se constrói.

Foi exatamente isso que registrei em Capital em Movimento: o investimento na Bitshopp foi a combinação certa de persistência, entrega e validação de mercado. Não a genialidade de um pitch, mas a soma de sinais que só o tempo consegue alinhar.

E há ainda uma camada que torna essa história especialmente significativa para mim. Durante esse mesmo período, tive outra investida no segmento de blockchain as a service, uma experiência que me ajudou a entender melhor ainda por que a Bitshopp tinha, agora, todas as condições de dar certo. Mas essa é uma história para outro artigo.

O próximo capítulo

A tokenização é um daqueles mercados em que a tese, a tecnologia e a regulação precisam amadurecer juntas. A Bitshopp me mostrou o lado do founder e da entrega. Em um próximo capítulo, pretendo explorar o outro lado dessa mesma equação: o que acontece quando o investidor entra em um mercado que ele ainda está aprendendo a decifrar.

Porque esta série, no fundo, nunca foi apenas sobre as investidas. É sobre como um investidor amadurece, capítulo após capítulo, a própria forma de enxergar inovação. E poucas coisas ensinam mais do que um não que, anos depois, se transforma em sim.

Principais aprendizados

  • Um não bem fundamentado faz parte da disciplina de investimento. Uma boa empresa e um bom investimento nem sempre coincidem no mesmo calendário.

  • Manter o relacionamento depois de um não é tão importante quanto a decisão em si. Foi a convivência ao longo de três anos que permitiu reavaliar a Bitshopp no momento certo.

  • Em mercados imaturos como a tokenização, o founder precisa educar o mercado antes de vendê-lo. Isso exige resiliência, não apenas tecnologia.

  • Contratos concretos, como a parceria com a Elo e a participação no piloto do DREX, valem mais como validação do que qualquer projeção.

  • O tempo entre o não e o sim pode ser a diligência mais valiosa: ele separa a promessa da entrega.

Perguntas frequentes

O que é tokenização de ativos?

Tokenização é o processo de representar um ativo, físico ou financeiro, como um token registrado em blockchain. Isso facilita negociar, fracionar e transferir esse ativo em mercados digitais, ampliando liquidez e acesso. Pode-se tokenizar desde crédito de carbono e títulos até imóveis.

O que é blockchain as a service?

É um modelo em que uma empresa fornece a infraestrutura de blockchain pronta para que outras companhias construam seus produtos sem precisar desenvolver a tecnologia do zero. Foi esse o papel original da Bitshopp: dar a base tecnológica para que tokenizadoras avançassem com suas soluções.

Por que um investidor diria não a uma empresa alinhada à sua tese?

Porque tese e timing são coisas diferentes. Uma empresa pode encaixar perfeitamente na visão de um investidor e, ainda assim, não estar no estágio de maturidade que justifica o investimento naquele momento. Disciplina é aceitar que o encaixe narrativo não substitui a leitura de momento.

O que faz um investidor mudar de ideia sobre uma empresa?

Trajetória. Entre uma primeira avaliação e uma segunda, o que mais informa é como a empresa se comportou no intervalo: se o founder foi resiliente, se houve entrega concreta e se o mercado validou a solução. Esses sinais só aparecem com o tempo.

Por que o mercado de tokenização é considerado difícil, apesar do potencial?

Porque exige educar o mercado antes de vendê-lo. Muitas empresas ainda precisam mudar a forma como operam suas categorias de investimento para adotar a tokenização. Isso torna a jornada comercial mais longa e exige do founder uma capacidade de evangelização que vai além do produto.

Leitura para aprofundar

Se você é founder e já ouviu um não de um investidor, ou investidor revisitando um não que deu há tempos, este capítulo é para compartilhar. A história da Bitshopp mostra que o melhor investimento, às vezes, é aquele que amadurece no tempo. E o próximo capítulo desta série vai olhar o mesmo intervalo por um ângulo diferente: o que acontece quando é o investidor que ainda está aprendendo a decifrar o mercado.

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