Bastidores da Tese Kadmotek — Capítulo 3: LeverPro
No capítulo anterior, contei uma história sobre tempo: os quinze anos que existiram antes de a Maia se tornar uma startup. Continuando a série, vamos para a próxima. Sobre obstinação, sobre profundidade de produto e sobre uma verdade que o venture capital nem sempre gosta de admitir: nem sempre vence quem tem mais dinheiro. Às vezes vence quem conhece o problema mais fundo do que qualquer concorrente.
Essa é a história da LeverPro. E, como quase todos os investimentos que marcaram a Kadmotek, ela não começou com um cheque. Começou com um assento em um conselho.
Antes de investir, eu ajudei a escolher
Minha relação com a LeverPro nasceu de um lugar particular. A empresa é uma fintech investida pela Bossa Invest, dentro do hub de fintechs em que participo do comitê. É assim que funcionam os venture capitals focados em investimento seed: os investidores, intitulados anjos, são convidados a atuar como mentores e conselheiros das investidas.
Com a LeverPro, porém, meu envolvimento começou antes mesmo do investimento. Participei da seleção dela de forma, admito, bastante incisiva, defendendo que a Bossa investisse. Não era entusiasmo passageiro. Havia ali algo que eu reconhecia.
Foi assim que, em 2023, passei a acompanhar a empresa mensalmente, em reuniões de conselho, ao lado de um grupo de investidores que respeito: Paulo Mendes, da GR8 Ventures, Mike Ajnsztajn, da Ace Ventures, e Fernando de Paula, da GV Ventures. Juntos, começamos a acompanhar de perto a jornada do Alysson.
E, quanto mais eu entendia o produto, mais eu entendia por que tinha defendido aquele investimento com tanta convicção.
Um produto que quase ninguém no Brasil ainda entende
O produto da LeverPro é uma ferramenta de FP&A, sigla para Financial Planning & Analysis, ou planejamento e análise financeira. Na prática, é a plataforma que permite a uma empresa planejar, projetar e analisar toda a sua vida financeira de forma estruturada, conectando-se a múltiplos ERPs e organizando o planejamento em um nível de profundidade que poucas ferramentas alcançam.
Aqui está o dado que mais me chamou a atenção quando o Alysson me apresentou o mercado. Segundo o benchmarking que ele fez em empresas globais antes mesmo de lançar a LeverPro:
| Mercado | Penetração de ferramentas de FP&A |
|---|---|
| Estados Unidos | Cerca de 60% das empresas usam ferramentas de FP&A |
| Europa | Cerca de 40% das empresas usam ferramentas de FP&A |
| Brasil | Menos de 2% das empresas usam ferramentas de FP&A |
Pare um instante nesse contraste. Não se trata de um mercado saturado, disputado à faca por dezenas de players. Trata-se de uma categoria inteira ainda por construir em um país inteiro. E construir categoria é uma das coisas mais difíceis, e mais valiosas, que uma startup pode fazer.
Foi isso que me atraiu. Não um produto a mais em um mercado lotado, mas profundidade real em um mercado quase virgem.
A decisão que provou o founder
Existe um momento, no começo de 2023, que para mim definiu quem era o Alysson como founder.
Naquela época, o ICP da LeverPro, o perfil de cliente ideal, eram empresas acima de R$ 10 milhões de faturamento. E uma das primeiras decisões que acompanhei no conselho foi ousada: subir o ICP para empresas acima de R$ 50 milhões.
Essa mudança teve um custo imediato e visível. Gerou um churn relevante de clientes. Muita gente, diante de um movimento desses, recuaria, o instinto de proteger a base costuma falar mais alto. Mas a decisão não derrubou o faturamento. Pelo contrário: trouxe clientes mais fortes, mais aderentes ao estágio de maturidade do produto, e afastou aqueles que tinham grande dificuldade de implantação e drenavam a operação.
Foi uma lição prática de uma verdade que o próprio Alysson defende em suas palestras: nem todo cliente que paga é um bom cliente. Ver um founder jovem tomar uma decisão dessas, com a disciplina de trocar volume por qualidade em plena busca por tração, me disse mais sobre ele do que qualquer projeção em planilha. Confesso que eu mesmo, quando empreendia, jamais tive coragem de sequer ventilar um movimento similar a esse.
Quando a mentoria virou relação, e a relação virou investimento
O que aconteceu depois não estava em nenhum roteiro.
A jornada com a LeverPro fez o relacionamento com o Alysson crescer em um nível que extrapolou as reuniões de conselho. Em 2024, fui ao SXSW, em Austin, e o convidei para ir comigo. Em 2025, viajamos juntos para São Carlos e Londres. Na primeira uma missão de conhecer o ecossistema de inovação da cidade com mais PhDs na América Latina, juntos com o George Garrido, da OneSix, e nessa viagem ainda descobri que o Victor Salles, referência em IA, que investe comigo na Leadfy, era uma pessoa próxima do Alysson, e esse papo gerou um convite para o Victor iniciar uma consultoria de IA na LeverPro. Em Londres fomos à UK FinTech Week. Cada viagem, cada conversa fora do ambiente formal das mentorias, estreitou uma relação que deixou de ser apenas a de um conselheiro representando a Bossa diante de uma investida.
Foi natural, então, que quando surgiu uma bridge para a LeverPro em 2025, eu passasse a ser investidor direto da empresa, não mais apenas coinvestidor via Bossa, convidando para co-investir comigo Frank Fujisawa da Novigo.
Reparo agora que essa é a mesma mecânica que descrevi nos capítulos anteriores desta série, ainda que por um caminho diferente. Com a Leadfy, foram quase três anos de convivência antes do cheque. Com a Maia, foram quinze anos de história antes da startup existir. Com a LeverPro, foi um assento no conselho que se transformou, reunião após reunião, viagem após viagem, em sociedade. O investimento quase sempre chega depois. Primeiro vem a convivência.
O investimento quase sempre chega depois. Primeiro vem a convivência.
Por que essa história é, no fundo, sobre mim
Preciso ser honesto sobre um ponto que pesou na minha decisão, e que talvez seja o mais difícil de colocar em uma tese de investimento: empatia.
A história do Alysson, em muitos momentos, me lembrou o que eu vivi como empreendedor. Antes da LeverPro, ele foi consultor financeiro, com uma consultoria bem-sucedida fazendo planejamento financeiro para empresas, projetando e analisando dados. Foi desse trabalho que nasceu, de forma orgânica, a percepção que muda tudo na vida de um founder: cerca de seis anos atrás, ele sentiu que, como consultoria, jamais escalaria o que estava desenvolvendo. Cada cliente novo dependia dele. Não havia máquina, havia esforço pessoal.
Foi então que ele decidiu construir a LeverPro, baseando-se nas ferramentas internacionais de FP&A. Essa passagem, a de quem percebe que o talento individual é um teto e não uma vantagem, é exatamente a travessia que separa o profissional excepcional do founder de verdade. Eu já vivi essa travessia. Por isso a reconheci nele.
E há um traço do Alysson que admiro sem reservas: o nível de obstinação. Ele não tem sábado nem domingo. Vive a jornada do empreendedor sem a romantização que costuma cercar essa palavra. É uma pessoa jovem, com um grau de dedicação à LeverPro que raramente vejo. Ele mesmo brinca que, para tocar um negócio assim:
É preciso ser um psicopata.
Pois então: bem-vindos, psicopatas que querem levar uma empresa até o sucesso. Porque é desse tipo de obstinação que nascem as empresas que sobrevivem ao mercado.
Uma empresa brasileira com sotaque global
Há ainda uma dimensão da LeverPro que reforça minha convicção sobre o potencial dela: o alcance global.
A empresa já atende, no Brasil, companhias que têm headquarters fora do país. Isso não é um detalhe operacional. É um indício. Uma ferramenta de planejamento financeiro robusta o suficiente para servir a empresas com matriz no exterior é, por definição, uma ferramenta que já opera em um padrão internacional de exigência.
Não por acaso, o Alysson construiu a LeverPro depois de fazer benchmarking nas principais empresas globais da categoria. Ele não partiu do que existia no Brasil, partiu do estado da arte lá fora e trouxe esse padrão para um mercado que ainda quase não conhecia a categoria. Acredito que, em breve, a LeverPro também estará atuando fora do Brasil. Cada uma das viagens que fizemos juntos, vendo de perto o mercado internacional, só reforçou essa leitura.
O que a LeverPro confirma na tese da Kadmotek
Cada capítulo desta série registra uma evolução na minha forma de enxergar o investimento. Com a Leadfy, aprendi a valorizar os ativos invisíveis, o conhecimento e os dados que se acumulam silenciosamente. Com a Maia, entendi que conhecimento validado pode virar infraestrutura.
A LeverPro confirma uma terceira convicção, e talvez a mais contraintuitiva para quem observa o venture capital de fora: profundidade de produto pode vencer tamanho e capital.
O mercado de tecnologia gosta de contar histórias de startups que cresceram porque captaram muito. A LeverPro conta outra história. Ela cresce em um mercado competitivo, com muito menos recursos do que concorrentes maiores, porque conhece o problema de FP&A mais fundo do que eles, e porque tem um founder obstinado o suficiente para transformar esse conhecimento em execução, dia após dia.
Como investidor-operador, é esse tipo de assimetria que procuro. Não a empresa que tem mais dinheiro na conta, mas a que tem mais profundidade no problema. Capital se iguala rápido: basta uma rodada. Profundidade de produto e obstinação de founder, não. Essas se constroem ao longo de anos e são muito mais difíceis de copiar.
É por isso que, quando penso na LeverPro, não penso apenas em uma fintech de planejamento financeiro. Penso em uma categoria inteira esperando para ser construída no Brasil, e em um founder com a densidade técnica e a resistência emocional para construí-la.
O próximo capítulo
No próximo capítulo, a história muda de cenário mais uma vez. Será a vez da Bitshopp, e de um aprendizado que nasce em um território diferente da minha própria trajetória.
Porque esta série, no fim, nunca foi apenas sobre as investidas. É sobre como cada uma delas ensinou algo a um investidor que continua, capítulo após capítulo, amadurecendo a própria forma de enxergar inovação.
Principais aprendizados
- Nem sempre vence quem tem mais capital. Em mercados de produto complexo, profundidade e conhecimento do problema podem superar concorrentes muito maiores e mais capitalizados.
- Construir uma categoria ainda inexplorada, como o FP&A no Brasil, é mais difícil e mais valioso do que disputar um mercado já lotado.
- Subir o ICP e aceitar churn no curto prazo pode fortalecer a empresa, quando troca clientes difíceis de implantar por clientes mais aderentes e maduros.
- A obstinação do founder é um ativo real, não um detalhe de personalidade. Ela é o que sustenta a execução quando o capital e o tamanho jogam contra.
- O investimento costuma ser a consequência, não o ponto de partida. A convivência, seja em conselho, em viagens ou em anos de conversa, vem antes do cheque.
Perguntas frequentes
O que é FP&A e por que importa para uma empresa?
FP&A é a sigla para Financial Planning & Analysis, ou planejamento e análise financeira. É a disciplina, e o conjunto de ferramentas, que permite a uma empresa projetar cenários, planejar orçamento e analisar seu desempenho financeiro de forma estruturada. Importa porque substitui a gestão financeira improvisada por previsibilidade e capacidade real de decisão.
Por que o mercado de FP&A é uma oportunidade no Brasil?
Porque a penetração ainda é muito baixa em comparação com mercados maduros. Segundo o benchmarking do próprio founder da LeverPro, enquanto boa parte das empresas nos Estados Unidos e uma parcela relevante na Europa usam ferramentas de FP&A, no Brasil a adoção ainda é mínima. Isso significa uma categoria inteira a ser construída, e não apenas um espaço a ser disputado.
Faz sentido um investidor entrar antes, como conselheiro, e só depois investir diretamente?
No caso da LeverPro, foi exatamente assim. Acompanhei a empresa por anos no conselho antes de me tornar investidor direto. Essa convivência oferece algo que nenhuma diligência entrega: ver como o founder decide sob pressão, ao longo do tempo, e não apenas o que ele apresenta em uma reunião.
Por que aumentar o ICP e perder clientes pode ser uma boa decisão?
Porque nem todo cliente que paga é um bom cliente. Elevar o perfil de cliente ideal pode gerar churn no curto prazo, mas costuma trazer clientes mais fortes, mais aderentes à maturidade do produto e menos custosos de implantar. O resultado tende a ser uma base mais saudável, mesmo com menos clientes.
O que um investidor-operador procura além dos números?
Procura profundidade e obstinação. Números mostram o presente; o que sustenta o futuro é o quanto o founder conhece o problema e o quanto está disposto a executar quando o cenário fica difícil. Esses atributos raramente aparecem em uma planilha, mas são os que mais explicam por que algumas empresas resistem.
Leitura para aprofundar
- Go-To-Market para Startups: Tração é Engenharia, Não Sorte — a palestra de Alysson Guimarães no CarnaThon, sobre como transformar produto em tração previsível.
- Como a Leadfy ajudou a transformar a tese de investimento da Kadmotek — o primeiro capítulo desta série.
- Quando uma história de 15 anos muda uma tese de investimento — o segundo capítulo da série, sobre a Maia.
- Capital em Movimento — como construímos o portfólio da Kadmotek e como a tese foi evoluindo.
- LeverPro — a plataforma de FP&A construída por Alysson Guimarães.
Se você acompanha a série Bastidores da Tese da Kadmotek, compartilhe este artigo com founders e investidores. A história da LeverPro mostra que, em tecnologia, profundidade e obstinação podem valer mais do que tamanho.
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