BASTIDORES DA TESE KADMOTEK • CAPÍTULO 5
Fenynx: como uma conversa sobre crédito, criptoativos e ambição global se tornou uma decisão de investimento.
Nos capítulos anteriores desta série, contei sobre investimentos que nasceram da convivência e da observação ao longo do tempo. A Leadfy, pelos ativos invisíveis que só se enxergam de perto. A Maia, pelos quinze anos que antecederam o cheque. A LeverPro, pela profundidade de produto que vence tamanho de capital. A Bitshopp, pelo “não” que a resiliência do founder transformou em “sim”.
A Fenynx traz uma situação diferente: aceitei investir quando o produto ainda precisava ser construído. Quem acompanha a Kadmotek sabe que não é minha prática investir em ideação. Busco MVP, compromisso dos founders e evidências de que existe uma dor real a resolver.
Então, o que me levou a abrir essa exceção? A resposta não está só na oportunidade de crédito com criptoativos como garantia. Está na história de como conheci Lucas Montanini, nas conversas que tivemos e nos elementos que acumulei antes de existir um pitch da Fenynx.
O produto ainda precisava ser construído. Minha convicção sobre a capacidade de execução do founder vinha de antes.
Conheci o Lucas antes de existir a Fenynx
Conheci Lucas em 2020. Ao longo dos anos, nossas conversas foram passando por tecnologia, negócios, mercado financeiro, erros de empreendedor e oportunidades que ainda não cabiam em um plano de negócios.
Temos algo em comum: fomos founders de empresas de tecnologia financeira e vivemos a experiência de um exit. Quem passou por isso sabe que uma venda não resume a história. Há decisões difíceis, produtos que não funcionaram e relacionamentos construídos muito antes de qualquer transação.
Foi assim que passei a reconhecer uma característica do Lucas: ele é orientado a negócios. Testa, escuta, ajusta e não parece ter apego à primeira versão de uma solução. Não basta ter repertório técnico; é preciso colocar esse repertório a serviço de uma dor que alguém esteja disposto a pagar para resolver.
Essa convivência não garante o sucesso de uma nova empresa. Mas oferece um tipo de contexto que dificilmente se forma em duas reuniões de apresentação.
Miami veio primeiro: a conversa sobre Aave e crédito com colateral cripto
Em março de 2025, estivemos juntos no Fintech Americas, em Miami. Saí do evento inquieto com uma contradição: o Brasil era citado como referência em Pix e Open Finance, mas sua presença institucional era pequena diante da importância de sua tecnologia. Registrei essa percepção depois no artigo “Miami como hub latino”, no blog da Kadmotek.
Entre uma palestra e outra, nossas conversas foram também para outro assunto que me interessava muito: a Aave e a possibilidade de utilizar criptoativos como garantia para obter crédito. Comentei bastante sobre o protocolo e sobre o espaço que enxergava para fazer algo com lógica semelhante no Brasil.
Minha provocação era simples: se alguém tem ativos digitais, por que a única alternativa para conseguir liquidez precisaria ser vendê-los? Em crédito tradicional, já convivemos há décadas com garantias, limites, risco de contraparte e mecanismos de liquidação. O que seria necessário para conectar essa disciplina a uma nova classe de ativos?
Não estou dizendo que desenhamos a Fenynx naquela viagem, nem que seu modelo deveria reproduzir a Aave. Um protocolo de lending em DeFi e uma infraestrutura que conecta crédito, custódia e participantes do sistema financeiro brasileiro têm arquiteturas e desafios diferentes. O ponto comum era a possibilidade de transformar ativos digitais em colateral para crédito.
Tenho a percepção de que aquelas conversas ajudaram a inspirar Lucas. A ideia de construir a Fenynx e a forma concreta que ela assumiu vieram depois, pela iniciativa dele e de Luan Rodrigues. Para mim, Miami ficou como um daqueles momentos em que uma reflexão de mercado, compartilhada entre empreendedores, pode continuar trabalhando mesmo depois que a viagem termina.
Depois de Miami, a entrevista que revelou mais sobre o founder
Em maio de 2025, recebi Lucas no canal da Kadmotek para a série “Exit: uma história de sucesso”. O episódio foi gravado antes do meu investimento na Fenynx. Eu já conhecia sua trajetória profissional, mas a conversa trouxe duas passagens que ajudam a explicar por que sua maneira de empreender me chama a atenção.
Do sítio no interior ao universo da tecnologia
Lucas contou que, adolescente, morava em um sítio em Itaju, no interior de São Paulo. Ajudava com as iscas dos pescadores e vendia queijo produzido pela mãe. Seu interesse por tecnologia começou ao conversar com um hóspede da pequena pousada da família, que trabalhava no setor e lhe apresentava aquele universo. Vieram depois os estudos na ETEC e na FATEC e as primeiras experiências empreendedoras.
Gosto de recuperar essa origem não para romantizar dificuldades, mas porque ela revela uma curiosidade que precede qualquer cargo ou empresa: a disposição de enxergar uma possibilidade nova a partir de um ambiente em que ela não era óbvia.
A meta dos 15 minutos
Na Live On, construída com Luan e posteriormente adquirida pelo Banco Modal, Lucas enfrentou um desafio bem concreto: reduzir radicalmente o tempo de implantação de bancos digitais. Na entrevista, contou como passou a perseguir uma meta que sua equipe considerava impossível: colocar um cliente no ar em 15 minutos, quando projetos semelhantes podiam consumir meses.
A provocação nasceu de uma observação prática. Se um mockup personalizado podia ficar pronto naquele tempo, o que precisaria mudar na arquitetura para aproximar a experiência real daquele prazo? A pergunta exigiu repensar processos, parametrizações e integrações. Lucas relatou inclusive uma demonstração feita durante uma reunião com executivos do Modal.
O que me interessa não é transformar os “15 minutos” em slogan. É a postura de formular uma ambição clara, mobilizar o time e traduzir o desafio em decisões de produto e execução. Reconheci ali o mesmo instinto de testar e refazer que já observava nas nossas conversas.
Na entrevista, também houve conexões pessoais. Quando Lucas falou sobre a caminhada até o exit, reconheci situações parecidas com as minhas. Dois empreendedores que já precisaram recomeçar sabem que o resultado visto de fora costuma esconder os erros e a persistência que o antecederam. Essa identificação ajudou a aprofundar nossa relação, mas não substituiu minha análise do novo investimento.
O convite para investir: por que aceitei antes do produto?
Quando Lucas me convidou para investir na Fenynx, eu já conhecia o empreendedor, seu histórico de execução e a forma como lidava com oportunidades no mercado financeiro. Também havia amadurecido minha própria leitura sobre o encontro entre Web3 e TradFi.
Mas há uma distinção importante. Um exit é evidência de uma realização passada, não uma garantia de que a próxima empresa funcionará. E uma conversa inspiradora sobre Aave não equivale à validação de um produto no mercado brasileiro.
A decisão teve outro fundamento: eu conhecia a capacidade do founder de transformar hipóteses em algo que pudesse ser oferecido a clientes; conhecia o desafio de estruturar crédito e integrações financeiras; e via sentido em investigar como ativos digitais poderiam ser aceitos como garantia dentro de uma infraestrutura voltada ao mercado.
A vocação internacional também pesou. Miami havia reforçado minha inquietação com o quanto ainda pensamos pouco além do Brasil, mesmo tendo construído conhecimento tecnológico relevante no sistema financeiro. Encontrar um founder disposto a construir com essa ambição ampliava meu interesse.
Não decidi que a Fenynx daria certo. Decidi que fazia sentido assumir aquele risco, com aquelas pessoas, diante daquela oportunidade.
Investir na visão não é dispensar evidências. É reconhecer quando parte importante delas está na trajetória, na execução e no contexto acumulado sobre quem vai construir.
O que a Fenynx está construindo
A Fenynx busca atuar como infraestrutura de crédito com ativos digitais em garantia. Em termos simples, um cliente pode utilizar um ativo elegível, como Bitcoin, como colateral para acessar recursos sem precisar vender imediatamente sua posição, sempre sujeito às condições da operação.
Isso exige muito mais do que aceitar uma criptomoeda e liberar dinheiro. É necessário conectar originação, funding, custódia, monitoramento de garantias, risco e liquidação. O preço do colateral oscila; a relação entre dívida e garantia precisa ser acompanhada; e contratos podem prever aportes adicionais de garantia ou liquidação quando determinados limites são atingidos.
É justamente aí que vejo a convergência que orienta parte da tese da Kadmotek: não um mercado substituindo o outro, mas infraestrutura financeira tradicional e ativos digitais passando a compartilhar problemas e soluções.
Dois movimentos públicos ajudam a acompanhar a trajetória da empresa desde a decisão de investimento. Em novembro de 2025, a Fenynx fez uma captação com instrumentos representativos de participação tokenizados, em operação estruturada com a Zuvia e apoiada na infraestrutura da B3. Mais recentemente, a Fenynx anunciou uma parceria com a Foxbit para crédito com garantia em Bitcoin.
Dois movimentos recentes, dois graus de certeza diferentes
Fato A Fenynx captou via instrumentos de participação tokenizados, com a Zuvia e a B3. A Fenynx anunciou parceria com a Foxbit para crédito com garantia em Bitcoin. A Fenynx foi selecionada para a etapa de pitch do NEXT Batch #9 (Fenasbac), com a Ripple indicada como mantenedora.
Ainda não é Liquidez secundária comprovada para participações early-stage — a captação é financiamento da própria empresa, não um mercado secundário em funcionamento. Tração efetivamente realizada — o anúncio e a projeção de carteira ainda não são volume operado. Aprovação regulatória ou confirmação de ingresso definitivo no programa — a seleção para o pitch é uma oportunidade de teste, não um resultado.
O NEXT e a próxima fronteira da tese
Em setembro de 2026, Lucas compartilhou outra notícia: a Fenynx havia sido selecionada para a próxima etapa do NEXT Batch #9, programa de aceleração da Fenasbac, e convidada a apresentar seu pitch no NEXT Day de 8 de setembro, em São Paulo. A Fenasbac também conduz iniciativas como o LIFT, ligadas ao ecossistema de inovação do mercado financeiro. Para mim, o valor dessa etapa está na oportunidade de submeter uma tese ambiciosa a interlocutores que conhecem o setor e suas exigências.
Lucas informou ainda que a Ripple seria a mantenedora da Fenynx durante a aceleração, com perspectiva de acesso a acompanhamento técnico, tecnologia e conexões — conforme detalhado no quadro acima, isso amplia o contexto da tese sem antecipar seu resultado.
O que mais me interessa nessa evolução é o próximo problema que o time quer resolver: avançar do crédito com garantia em Bitcoin para estruturas que combinem ativos reais e digitais como colateral. Isso amplia as possibilidades de aplicação e impõe novos desafios de risco, formalização e integração. É a convergência entre TradFi e Web3 saindo da conversa de Miami e entrando, pouco a pouco, nas decisões de arquitetura do negócio.
É isso que sigo querendo observar de perto: como a visão se transforma em oferta, clientes, operações e disciplina de risco. O cheque não encerra a tese. Ele abre uma nova etapa de validação.
O aprendizado que fica para a tese Kadmotek
Olhando para trás, percebo que minha decisão de investir na Fenynx começou muito antes do convite para entrar na sociedade. Começou na convivência com Lucas, ganhou novas perguntas em Miami e encontrou mais evidências na entrevista sobre o que ele havia construído com a Live On.
Sei que esse percurso não elimina o risco. Conhecer bem um founder não protege uma empresa de mudanças de mercado, problemas operacionais ou erros de execução. Também não transforma uma exceção em regra: continuo buscando MVP e validação nas oportunidades que chegam à Kadmotek.
Mas me ajuda a compreender melhor quais riscos estou assumindo e com quem estou disposto a enfrentá-los.
Na Fenynx, a visão veio antes do produto. A convicção sobre o empreendedor, antes do cheque.
Principais aprendizados
- Convivência gera contexto: observar o founder ao longo de anos revela mais do que uma sequência de pitches.
- Visão precisa encontrar execução: a história dos 15 minutos mostrou a importância de traduzir ambição em desenho de produto e entrega.
- Inspiração não é autoria da ideia: as conversas sobre Aave em Miami ajudaram a provocar uma reflexão; a Fenynx foi construída pela iniciativa de seus founders.
- Uma exceção à régua exige uma justificativa específica: histórico de execução não garante resultado, mas pode sustentar uma decisão consciente de assumir risco de produto.
- Web3 e TradFi se encontram em problemas concretos: crédito, custódia, garantias, funding, risco e liquidação.
- Seleção para uma aceleração é oportunidade de teste, não validação final: a passagem pelo NEXT coloca a hipótese de combinar ativos reais e digitais diante de especialistas e parceiros; o resultado continua dependendo de produto, clientes e risco bem administrado.
Perguntas frequentes
Por que a Kadmotek investiu antes de a Fenynx ter o produto pronto?
Porque a decisão combinou conhecimento acumulado sobre Lucas e Luan, experiência em infraestrutura financeira e uma leitura própria sobre crédito com ativos digitais como garantia. Foi uma exceção deliberada, não o abandono da preferência da Kadmotek por MVP e validação.
A Fenynx nasceu no Fintech Americas, em Miami?
Não. Em Miami, compartilhei com Lucas reflexões sobre a Aave e o espaço para soluções de crédito com colateral cripto no Brasil. Acredito que as conversas podem ter contribuído como inspiração, mas não afirmo que a ideia ou o modelo da Fenynx tenham sido definidos ali.
Qual é a relação entre a Fenynx e a Aave?
A comparação está na função econômica de utilizar criptoativos como garantia para obter liquidez. Não significa que a Fenynx replique o protocolo Aave: uma infraestrutura de crédito que conecta instituições e parceiros enfrenta desenho operacional e exigências próprios.
Por que o histórico da Live On foi relevante?
A experiência de colocar soluções financeiras no mercado, reduzir tempos de implantação e enfrentar os desafios de execução forneceu elementos para avaliar o empreendedor. Um exit anterior, por si só, não garante sucesso em um novo negócio.
O que representa a seleção para a próxima etapa do NEXT Batch #9?
Segundo a comunicação de Lucas, a Fenynx avançou à etapa de pitch do programa da Fenasbac, com apresentação marcada para 8 de setembro de 2026, e a Ripple indicada como mantenedora durante a aceleração. É uma oportunidade de interlocução técnica e de desenvolvimento da tese; não deve ser confundida com aprovação do Banco Central ou com resultado confirmado do pitch.
Continue a leitura e a conversa
Miami como hub latino — Fintech Americas 2025 — A reflexão sobre o protagonismo tecnológico brasileiro e a ambição internacional.
Exit: uma história de sucesso — Lucas Montanini — A entrevista de maio de 2025, anterior ao investimento na Fenynx.
B3 e Zuvia: infraestrutura para crowdfunding tokenizado — Contexto da infraestrutura de tokenização e negociação subsequente de instrumentos.
Bitcoin como garantia: Fenynx e Foxbit — Notícia da parceria anunciada em abril de 2026.
Bastidores da Tese — Bitshopp — O capítulo anterior da série.
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