Kadmotek Quarterly: Menos dispersão, mais profundidade

Kadmotek Quarterly: Menos dispersão, mais profundidade

Capital seletivo, inteligência aplicada e construção de valor em um mercado que exige mais dos investidores e dos founders

O mercado não parou. Mas ficou mais seletivo.

O capital continua circulando, novas tecnologias continuam avançando e boas oportunidades continuam surgindo. O que mudou foi a régua.

Investidores estão mais criteriosos, founders precisam demonstrar maior capacidade de execução e empresas já não podem tratar governança, eficiência e geração de receita como assuntos para uma etapa futura.

Na Kadmotek, essa mudança também está refletida na forma como estamos alocando nosso recurso mais escasso: o tempo.

Não enxergamos este momento como um ciclo para investir no mesmo ritmo do passado. Continuamos atentos a novas oportunidades, mas nosso foco principal tem sido apoiar o portfólio, participar das reuniões de conselho, realizar mentorias, conectar empresas e transformar experiência prática em conhecimento compartilhado.

Esse movimento não representa uma pausa.

Representa profundidade.

IA deixou de ser promessa. Agora precisa entregar valor — com governança

A inteligência artificial já foi incorporada ao dia a dia das pessoas e das empresas.

No Brasil, 79% dos profissionais afirmam utilizar ferramentas de IA em suas tarefas diárias. Ao mesmo tempo, apenas 23,7% dizem que suas empresas possuem políticas claras para orientar esse uso.

Esse contraste sintetiza o momento atual: a adoção avançou mais rapidamente do que a governança.

A pergunta já não é mais se as empresas devem utilizar inteligência artificial. A questão agora é como transformar o uso individual e fragmentado em valor mensurável, especialmente em um ambiente de orçamentos pressionados e maior cobrança por resultados.

Ainda existe uma distância significativa entre experimentar uma ferramenta e incorporá-la efetivamente à operação.

Um levantamento sobre tendências para 2026 mostrou que 47,1% das empresas ainda não possuem processos formais de governança de IA. Outras 21,2% avaliam questões relacionadas à segurança apenas quando surge uma necessidade.

Na prática, muitas organizações estão avançando com a tecnologia sem uma estrutura contínua de controle, acompanhamento e responsabilidade.

Governança, nesse contexto, não deve ser confundida com burocracia.

Ela começa por perguntas objetivas:

Quais ferramentas estão sendo utilizadas? Que dados estão sendo inseridos nelas? Quais decisões podem ser automatizadas? Quem valida os resultados? É possível rastrear como determinada recomendação foi produzida? E quem responde quando algo dá errado?

No CarnaThon, uma das discussões que transformamos em artigo foi justamente o desafio do founder não técnico diante da transição para uma arquitetura AI-first.

A principal conclusão continua válida: liderar essa transformação não depende necessariamente de saber programar, mas de compreender profundamente o negócio, organizar os dados, redesenhar processos e construir uma cultura capaz de utilizar a tecnologia com propósito.

A próxima vantagem competitiva não estará apenas em adotar IA mais rapidamente.

Estará em incorporá-la aos processos sem perder controle, responsabilidade e confiança.

A nova régua do capital

No venture capital, o movimento também é de amadurecimento.

O capital não desapareceu, mas passou a exigir mais evidências. Crescimento sem disciplina, narrativas desconectadas da operação e dependência permanente de novas rodadas perderam espaço.

Eficiência, receita, governança, distribuição, capacidade de adaptação e qualidade de execução ganharam importância.

No primeiro Kadmotek Quarterly, escrevi sobre a migração do capital da narrativa para o fundamento. Essa leitura permanece atual e passou a orientar ainda mais a nossa atuação.

A Kadmotek não está fechada a novas oportunidades. Entretanto, neste momento, não vemos razão para investir no mesmo ritmo dos ciclos anteriores.

Nossa melhor alocação de tempo, experiência e relacionamento tem sido apoiar as empresas que já fazem parte do portfólio.

Isso acontece nas reuniões de conselho, nas mentorias, nas conexões comerciais, nas discussões estratégicas e no acompanhamento das decisões difíceis.

Em venture capital, nem todo movimento precisa ser um novo cheque. Em determinados ciclos, aprofundar o apoio às empresas em que já acreditamos pode ser a decisão de maior valor.

O artigo “Capital em Movimento” procurou mostrar essa realidade de maneira transparente.

Um portfólio verdadeiro não é construído apenas com anúncios de novas investidas. Ele inclui entradas, amadurecimento, mudanças de rota, perdas e saídas.

Por isso, apresentamos novas empresas, nosso primeiro write-off e o primeiro exit internacional da Kadmotek.

Nos próximos conteúdos, vamos aprofundar essas histórias. Mais do que divulgar marcos, queremos compartilhar os aprendizados gerados por cada decisão e por cada etapa dessa jornada.

CarnaThon: conhecimento construído por quem está executando

Neste ano, reservamos um momento especial para reunir as investidas da Kadmotek e as empresas investidas por Frank Fujisawa, que coinveste conosco por meio da NOVIGO e da RAFF.

Assim nasceu o CarnaThon.

Foram oito palestras construídas a partir de desafios reais enfrentados por founders e executivos.

O encontro foi muito elogiado pela qualidade e, principalmente, pela entrega de conteúdo aplicável. Não queríamos criar apenas mais uma agenda de apresentações ou networking. O objetivo era reunir pessoas com experiências complementares e transformar conhecimento prático em troca efetiva.

Parte das palestras já está disponível no canal da Kadmotek no YouTube. Duas delas também foram transformadas em artigos no KadBlog.

A primeira abordou as alianças estratégicas como caminho para startups escalarem em mercados tradicionais.

Em muitos casos, a limitação para crescer não está apenas no produto ou na tecnologia, mas no acesso à distribuição, à credibilidade e aos canais comerciais. Uma boa parceria pode encurtar anos de construção isolada.

A segunda tratou do dilema do founder não técnico diante de uma arquitetura AI-first.

O ponto central foi mostrar que essa transição não deve ser delegada integralmente à área de tecnologia. Ela exige liderança, priorização e clareza sobre onde a inteligência artificial pode gerar valor concreto.

O CarnaThon começou como um encontro entre empresas próximas e terminou apontando para algo maior: uma plataforma de compartilhamento de conhecimento entre founders que estão enfrentando problemas reais.

Pretendemos promover novas experiências com essa mesma ambição.

Apoiamos o portfólio também quando criamos ambientes em que os aprendizados de uma empresa podem acelerar as decisões de outra.

Presença seletiva, conexões mais relevantes

Em anos anteriores, estivemos presentes em uma agenda muito extensa de eventos. Neste ciclo, adotamos uma postura mais seletiva.

Continuamos próximos dos ecossistemas de fintechs, crédito, ativos digitais, inovação e tecnologia, mas passamos a priorizar os ambientes mais alinhados às nossas teses, às necessidades do portfólio e às conexões que podem produzir resultados concretos.

Participamos de encontros relevantes do mercado financeiro e de inovação, como o Bancos & Banking, o FinTouch e eventos ligados ao universo Web3 e aos ativos digitais.

A presença nesses espaços continua importante, mas não como um fim em si mesma.

Estar em todos os lugares produz visibilidade.

Estar nos lugares certos pode produzir conhecimento, conexão e negócio.

Essa lógica também orienta nossa agenda para agosto.

Pela primeira vez, a Quadra.trade, nossa investida de Londres, estará presente na FEBRABAN TECH.

A empresa possui atuação global no mercado de ativos digitais, e sua participação amplia a conexão entre uma tese internacional do nosso portfólio e o principal ecossistema de tecnologia financeira do Brasil.

Também estaremos no Congresso & ExpoFenabrave, prestigiando a Leadfy.

A empresa atua na interseção entre tecnologia, marketing e vendas para o setor automotivo — um exemplo de como soluções especializadas podem gerar valor quando compreendem profundamente a dinâmica de um mercado tradicional.

Um cenário difícil não elimina oportunidades

O Brasil continua atravessando um ambiente desafiador para empresas e investidores.

Os pedidos de recuperação judicial vêm crescendo, reflexo de uma combinação de endividamento, crédito restrito, margens pressionadas e um período prolongado de juros elevados.

O Banco Central iniciou o movimento de redução da Selic, que chegou a 14,25% ao ano em junho, mas o custo do capital permanece alto e os efeitos dessa flexibilização não chegam imediatamente ao caixa das empresas.

É preciso reconhecer a dificuldade do cenário sem transformar cautela em imobilidade.

Empreender nunca foi uma atividade reservada a momentos perfeitos.

Quem constrói empresas precisa planejar, controlar o caixa, revisar premissas, utilizar melhor as ferramentas disponíveis e preservar a capacidade de reconhecer oportunidades mesmo quando elas não são óbvias.

Hoje, temos mais tecnologia, mais dados e mais instrumentos para apoiar decisões. Isso não elimina o risco, mas aumenta a responsabilidade sobre a forma como escolhemos agir.

Para investidores em equity, ciclos como este também exigem perspectiva.

Resultados não são produzidos em linha reta, e o valor de um portfólio não pode ser medido apenas pelo número de novos aportes ou por acontecimentos de curto prazo.

É justamente para esse investidor que existe a Kadmotek Quarterly: para compartilhar o que estamos fazendo, como estamos acompanhando nossos investimentos e de que forma estamos lendo o futuro.

O que está por vir

Nos próximos meses, daremos continuidade aos conteúdos originados no CarnaThon, transformando novas palestras em artigos e ampliando o acesso ao conhecimento compartilhado no evento.

Também vamos destrinchar “Capital em Movimento”, contando com mais profundidade as histórias das investidas, do write-off e do exit.

Acreditamos que compartilhar decisões difíceis e aprendizados reais é tão importante quanto celebrar conquistas.

Em agosto, uma nova série de vídeos será publicada no canal da Kadmotek. No mesmo período, estaremos próximos da Quadra.trade na FEBRABAN TECH e da Leadfy no Congresso & ExpoFenabrave.

Seguiremos avaliando oportunidades, mas sem confundir movimento com direção.

Cenários difíceis não eliminam oportunidades.

Eles apenas tornam mais importante saber onde olhar, com quem caminhar e como alocar capital, tempo e conhecimento.

Mais do que registrar acontecimentos, esta carta existe para compartilhar com nossos investidores a forma como estamos lendo o mercado, acompanhando o portfólio e nos preparando para o próximo ciclo.

O capital pode estar mais seletivo. A tecnologia pode avançar mais rapidamente do que a governança. E o ambiente econômico pode continuar exigindo cautela.

Ainda assim, boas empresas continuarão sendo construídas.

Nosso trabalho é permanecer próximos o suficiente para reconhecê-las — e preparados o suficiente para ajudá-las a avançar.

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