Da informática aos agentes de IA: o que a Febraban Tech 2026 diz sobre o futuro do crédito

Gilberto Albuquerque analisa a Febraban Tech 2026 e o futuro do crédito

Notas da Febraban Tech 2026 — entre a abertura do presidente do Banco Central, os vencedores da Arena Fintech e a camada que quase ninguém estava olhando.

Galípolo abriu a Febraban Tech falando de informática.

Não foi deslize. Para quem viveu os anos 80 e 90, informática era como chamávamos boa parte do que hoje colocamos debaixo do enorme guarda-chuva da tecnologia. Ouvir aquilo de um presidente do Banco Central, num evento em que todo mundo discutia agentes de IA, foi um lembrete simpático de que já vi esse filme algumas vezes. Ele estava reconstruindo como o sistema financeiro brasileiro ficou bom em tecnologia: inflação alta e indexação disseminada obrigaram bancos, reguladores e infraestruturas de mercado a resolver problemas operacionais de grande complexidade em prazos muito curtos, por décadas seguidas. Padronização de cheque e boleto, automação bancária, compensação nacional, sistemas eletrônicos de liquidação e custódia. A sofisticação que hoje o mundo elogia nasceu de pressão, não de visão estratégica.

Passada a nostalgia, valeu prestar atenção ao título da apresentação: “Inclusão e cidadania financeira: do acesso ao uso responsável.”

Aquele “do… ao” é a tese inteira do evento. E era, justamente, o que quase ninguém no salão estava discutindo.

Acesso e uso são duas coisas diferentes Acesso: colocar uma pessoa dentro do sistema financeiro. É uma conquista tecnológica e social. Uso: fazer com que ela consiga utilizar crédito, pagamentos e produtos financeiros de maneira sustentável. É um desafio muito mais complexo.

A parte que o Brasil já ganhou

Os primeiros slides são uma vitória, e vale reconhecer sem economia.

Foram 80 bilhões de transações por Pix em 2025, movimentando R$ 35 trilhões. São 148 milhões de pessoas físicas usuárias — cerca de 86% da população adulta — e 12,8 milhões de empresas, algo como metade das empresas ativas do país. Em algum ponto do caminho, a curva de usuários do Pix cruzou e ultrapassou a de clientes bancários ativos no sistema.

E veio o slide mais desconcertante da manhã: numa pesquisa Genial/Quaest, o Pix lidera o ranking de confiança do brasileiro, com 80%. À frente da Igreja Católica, das Forças Armadas, do Congresso — e, com todo respeito, do próprio cônjuge, com direito a uma brincadeira do Galípolo.

A inclusão também não ficou no papel. Três anos depois do lançamento, entre os adultos inscritos no CadÚnico, 74% já tinham registrado uma chave Pix e 72% haviam feito ao menos um pagamento no ano. Não foi inclusão estatística: virou transação miúda, frequente, do dia a dia.

Acesso, no Brasil, é problema resolvido.

Foi por isso que ouvir do palco que a tecnologia está “zerando os problemas de acesso a crédito” soou, para mim, menos como conquista e mais como alerta. Estamos comemorando a vitória do ciclo anterior.

A parte que começa agora

Aí o tom da apresentação muda.

O endividamento das famílias saiu de 41,8% para 49,8% da renda anual entre 2020 e 2026. Excluindo o crédito imobiliário — ou seja, só a dívida que não constrói patrimônio —, foi de 25,6% para 31,1%.

O detalhe que deveria incomodar mais o mercado é o slide seguinte. O desemprego está em 5,4%, o menor da série. A renda disponível das famílias está no topo, em R$ 822 bilhões. Ou seja: a inadimplência não está subindo porque o brasileiro perdeu o emprego ou a renda. Está subindo com emprego e renda em condições historicamente boas.

Quando o atraso cresce no melhor cenário de mercado de trabalho em anos, o problema não é conjuntura. É estrutura de crédito.

E o Banco Central nomeou a estrutura — porque nem toda dívida é igual. Quatro linhas explicam tanto o endividamento quanto a inadimplência:

  • Consignado privado (CLT). O maior vetor recente de expansão do crédito às famílias: saldo de R$ 41 bi para R$ 102 bi em doze meses, alta de 145%. Inadimplência de 5% para 6,7%. E a taxa média subindo de 40,9% para 57% ao ano no mesmo movimento.

  • Cartão de crédito. Mais de 37 milhões de brasileiros entraram no cartão entre 2020 e 2024. Os que carregam dívida com juros passaram de 34 milhões para 52,8 milhões. A renda comprometida com o cartão foi de 38,5% para 54%. O rotativo custa 15,13% ao mês.

  • Crédito pessoal não consignado. Saldo de R$ 137,7 bi para R$ 397,2 bi desde 2020. E o dado que mais me chamou atenção: 68,7% desse saldo — cerca de R$ 275 bilhões — não tem nenhuma garantia. É o maior patamar da série.

  • Financiamento de veículos. A carteira de pessoas físicas chegou a R$ 406 bi, com inadimplência saindo de 4,3% para 6,6%.

O que separa 26,4% de 149,5%

Aqui está, para mim, o número mais importante da apresentação inteira — e ele não aparece como manchete em lugar nenhum.

No crédito pessoal, a operação sem garantia custa 149,5% ao ano. A operação com algum lastro custa 27,5%. Mais de cinco vezes de diferença, para o mesmo produto e, muitas vezes, para o mesmo tomador. E o financiamento de veículos, que também está entre as linhas com atraso em alta, cobra 26,4% ao ano — o mais barato dos quatro — precisamente porque tem garantia real sobre o bem.

Depois de trinta anos olhando crédito, eu leio isso de um jeito só:

Garantia é informação. Onde existe lastro identificável, rastreável e executável, o preço do dinheiro cai a um quinto. Onde não existe, o sistema cobra a incerteza do tomador — e depois cobra de novo, na cobrança.

Isso muda o lugar do problema. Não é uma questão de produto, de app ou de jornada. É uma questão de infraestrutura de informação. E foi exatamente por aí que Galípolo puxou a carteira imobiliária durante a fala: o Relatório de Estabilidade Financeira diz, com todas as letras, que o crescimento do endividamento no cartão preocupa mais do que o do crédito imobiliário, porque o financiamento habitacional constitui um ativo para a vida da pessoa, enquanto o rotativo não tem garantia e concentra risco. É a mesma lógica vista pelo outro lado: a dívida que constrói patrimônio — e que tira gente do aluguel — não é o problema. O problema é a dívida cara que não deixa nada de pé.

Ele também mencionou o Desenrola 2.0. E aqui vale a honestidade: um país que precisa renegociar a dívida da população em rodadas sucessivas não tem só um problema de crédito. Tem um problema de letramento financeiro. Acesso sem repertório vira dívida cara — e essa é a fronteira que quase nenhum pitch de fintech quer encarar, porque ela não escala bonito em slide.

“Quem paga a conta da inovação?”

Foi o título de um painel do evento, e talvez a melhor pergunta feita nos três dias.

Os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, 8% a mais que no ano anterior. Foram 240,8 bilhões de transações em 2025, 83% por canais digitais e 78% pelo celular — o mobile cresceu 169% em cinco anos.

Coloque esses dois blocos de números lado a lado. R$ 50,4 bilhões de investimento em tecnologia bancária, de um lado. Crédito pessoal sem garantia a 149,5% ao ano, do outro. A inovação melhorou muito a experiência de tomar dinheiro. Melhorou pouco o preço de quem toma.

E há um contraponto saudável ao entusiasmo da feira: segundo a própria pesquisa da Febraban, cerca de 60% das instituições ainda estão em fase inicial de adoção de IA, e em IA generativa a maioria segue experimentando casos de uso. Nos painéis, os executivos foram consistentes com isso. Marcelo Noronha foi direto ao dizer que ética, reputação e responsabilidade institucional não dá para delegar à máquina. Livia Chanes apresentou o modelo de risco de crédito do Nubank já com a governança amarrada. O consenso, quando se lê com atenção, é que os bancos usam IA em tudo — e mantêm decisão sensível, especialmente crédito e fraude, sob controle humano.

Ou seja: a feira falou de banco agêntico, mas quem opera o balanço ainda não entregou autonomia de verdade à máquina. É uma distância honesta, e ela vale mais para um investidor do que qualquer keynote.

E fica a minha pergunta, no meio de todo o debate sobre aplicação de IA: quem está preocupado em dar ao cliente a ferramenta para avaliar qual é o crédito adequado para ele — e as opções de planejamento financeiro que deveriam vir junto?

A Arena respondeu antes de a pergunta ser feita

O que me deixou mais otimista não estava no palco principal. Estava na Arena Fintech.

Fizemos, com curadoria do George Garrido, um giro pela feira para conversar com as finalistas — a cobertura mais completa que a Kadmotek já fez de um evento. E quando os vencedores saíram, o encaixe com o telão do Banco Central foi quase literal.

A Fintalk, do Luiz Lobo, venceu com IA conversacional aplicada a recuperação de crédito e cobrança humanizada. É exatamente a ponta do problema que o Galípolo mostrou: a inadimplência que sobe com emprego em alta, e o que se faz com a pessoa depois que a dívida já existe.

A Carbigdata, do Pedro de Paula, venceu com inteligência de dados veiculares e análise de imagem por IA para prevenção a fraude, vistoria e análise de risco. É a outra ponta — a da garantia. É, ponto por ponto, a linha de financiamento de veículos que o Relatório de Política Monetária citou entre as três que puxaram os atrasos.

Uma ataca a informação antes do crédito. A outra, o resgate depois dele. Nenhuma das duas venceu por ser “de IA” — venceram porque IA, ali, serve para produzir informação de risco que antes não existia. É a diferença entre usar a tecnologia como camada de marketing e usá-la como camada de lastro.

E não é a primeira vez que a Arena aponta para o mesmo lugar. Nos dois anos anteriores, quem venceu foi a Flourish, do Pedro Moura — nossa investida —, que ataca o mesmo problema pela raiz: comportamento e saúde financeira de quem toma o crédito. Três anos, três respostas diferentes para a mesma pergunta. O júri da Arena vinha enxergando “do acesso ao uso responsável” antes de o Banco Central colocar a frase no telão.

E a camada que quase ninguém estava olhando

Teve ainda um capítulo pessoal. A Quadra, uma das minhas investidas, estreou no Brasil na Febraban Tech, com o Pedro Birmann apresentando ao mercado brasileiro pela primeira vez.

A feira falou de pagamentos e de agentes. A Quadra foi falar do que existe embaixo: infraestrutura institucional para ativos digitais — liquidez, custódia, risco, compliance e liquidação.

Pode parecer tema de nicho. Não é mais, e a prova apareceu na própria apresentação do Banco Central. Nos slides de medidas recentes estavam as Resoluções 519, 520 e 521, que trouxeram os prestadores de serviços de ativos virtuais para dentro do perímetro do BC e definiram quais operações com ativos virtuais são, na prática, câmbio. E estava a Resolução 580, que a partir de 1º de janeiro de 2027 coloca essas instituições no arcabouço prudencial, com tratamento próximo ao de CTVMs e DTVMs.

Quando o assunto sai do painel de Web3 e entra no slide de medidas do presidente do Banco Central, ele deixou de ser tendência. Virou agenda regulatória com data.

O Brasil é hoje o 5º país no índice global de adoção de cripto da Chainalysis, e a maior parte do volume declarado é stablecoin — na prática, um mercado de câmbio paralelo em plena convergência para dentro da regra. A pergunta deixou de ser se bancos e instituições tradicionais vão operar nesse mercado. Passou a ser com que infraestrutura, com que governança e com quanto tempo de antecedência.

O que eu levo da Febraban Tech 2026

Durante muitos anos, inovar em serviços financeiros significou principalmente digitalizar o que já existia: internet banking, aplicativos móveis, jornadas de cliente, criptoativos, Pix, open finance. Esse ciclo — o que se ganhava construindo acesso — acabou. Voltamos para a camada de baixo: informação de risco, garantia rastreável, liquidação, compliance e infraestrutura. É menos vistoso, é mais difícil de demonstrar num pitch de cinco minutos e é onde estão os cinco sextos de preço que separam 26,4% de 149,5%.

É por isso que, na Kadmotek, temos olhado cada vez menos para a interface e cada vez mais para o trilho — em crédito, em dados e em ativos digitais. Interface o mercado já sabe fazer. Trilho, não.

Talvez por isso eu tenha gostado quando Galípolo falou em informática: porque me lembro de um mundo que não tinha trilhos.

Fica a pergunta que o painel deixou e que o telão do Banco Central respondeu sem querer: se investimos R$ 50,4 bilhões por ano em tecnologia bancária, quanto disso está chegando ao preço do crédito de quem realmente paga a conta?

Principais aprendizados

  • Acesso ao sistema financeiro deixou de ser o gargalo no Brasil: o Pix chegou a 86% da população adulta e lidera o ranking de confiança do país. A fronteira agora é o uso responsável.

  • A inadimplência está subindo com desemprego no menor nível da série e renda no topo — o que indica problema de estrutura de crédito, não de conjuntura.

  • Garantia é informação: no crédito pessoal, a operação sem lastro custa 149,5% ao ano contra 27,5% com lastro. A variável que explica cinco vezes de preço é a qualidade da informação de risco.

  • Os R$ 50,4 bilhões que os bancos investem em tecnologia melhoraram a experiência de tomar crédito muito mais do que o preço dele — e cerca de 60% das instituições ainda estão em fase inicial de adoção de IA.

  • Os vencedores da Arena Fintech atacam as duas pontas do mesmo problema: informação de garantia antes do crédito (Carbigdata) e recuperação depois dele (Fintalk).

  • Ativos digitais viraram agenda regulatória com data: Resoluções BCB 519, 520 e 521 já em vigor e a 580 levando os PSAVs ao regime prudencial em 1º de janeiro de 2027.

Perguntas frequentes

Se acesso já é problema resolvido, onde ainda sobra espaço para uma fintech nova?

Na camada que produz informação de risco. Tudo o que reduz incerteza sobre quem toma o crédito e sobre o que lastreia a operação tem valor econômico imediato e mensurável — está na diferença entre 26,4% e 149,5% ao ano. Interface e jornada o mercado já sabe fazer; originação com lastro rastreável, não.

Como um founder demonstra, na prática, que está na infraestrutura e não só na interface?

Mostrando qual decisão do cliente muda por causa do seu produto, e quanto isso vale em spread, perda ou custo de capital. Se a resposta for “melhora a experiência”, é interface. Se for “permite aprovar um crédito que antes seria recusado, ou precificar melhor um que seria mal precificado”, é infraestrutura.

O calendário regulatório de ativos digitais importa para quem não é PSAV?

Importa, e mais do que parece. A Resolução 521 trouxe operação com ativo virtual para dentro do mercado de câmbio, e a 580 coloca os PSAVs no regime prudencial a partir de janeiro de 2027. Quem tem licença, câmbio e balanço passa a ser contraparte natural desse fluxo — o que é uma linha de receita nova, não um projeto novo.

IA em crédito: o que os bancos realmente estão comprando hoje?

Menos autonomia do que o discurso da feira sugere. Eles usam IA em praticamente tudo, mas mantêm decisão sensível — crédito e fraude — sob governança e controle humano. Quem vende para banco deveria vender melhoria de decisão com trilha de auditoria, não substituição de decisão.

Continue a conversa

Este é o primeiro de uma série. As entrevistas do George Garrido com as vencedoras e finalistas da Arena Fintech estão saindo no canal da Kadmotek, junto com as conversas com fintechs, instituições financeiras e empresas de tecnologia presentes no evento — é lá que dá para ouvir, dos próprios founders, o que estas reflexões só resumem. Comece pelo primeiro vídeo da cobertura.

Fontes

• Banco Central do Brasil — Apresentação de Gabriel Galípolo na Febraban Tech 2026, 24/08/2026 — https://www.bcb.gov.br/conteudo/home-ptbr/TextosApresentacoes/Apresentacao_GabrielGalipolo_FebrabanTech_24.8.2026.pdf

• Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária (jun/2026), Relatório de Estabilidade Financeira (mai/2026), Relatório de Cidadania Financeira 2025 e Relatório de Gestão do Pix 2023–2025 — https://www.bcb.gov.br/content/cidadaniafinanceira/documentos_cidadania/RIF/relatorio_de_cidadania_financeira_2025.pdf

• Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (Febraban/Deloitte) — https://portal.febraban.org.br/noticia/4469/pt-br/

• Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 09/08/2026 — https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/pix-lidera-confianca-dos-brasileiros-segundo-pesquisa-genial-quaest/

• Finsiders Brasil — Bancos admitem que ainda não entregam autonomia total à IA — https://finsidersbrasil.com.br/tecnologia-para-fintechs/bancos-admitem-que-ainda-nao-entregam-autonomia-total-a-ia/

• Convergência Digital — Febraban Tech 2026: IA mudou a maneira dos bancos fazer negócios — https://convergenciadigital.com.br/mercado/febraban-tech-2026-inteligencia-artificial-mudou-a-maneira-dos-bancos-fazer-negocios/

• Chainalysis — Global Crypto Adoption Index 2025 — https://www.chainalysis.com/blog/2025-global-crypto-adoption-index/

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