Investidas, write-off e o primeiro exit internacional da Kadmotek
Welcome
Portfólio bonito no PowerPoint é fácil.
Difícil é contar a história real.
Aquela que mistura entusiasmo, convicção, risco, frustração, amadurecimento e, de vez em quando, liquidez. Quem olha de fora normalmente vê apenas o anúncio da rodada, a foto do evento ou o post celebrando mais uma startup no portfólio. Mas a vida real de quem investe em early stage está longe de ser linear.
Por isso resolvi organizar este balanço.
Aqui não estou trazendo apenas novas investidas. Estou trazendo também meu primeiro write-off no portfólio e meu primeiro exit internacional. Porque investir de verdade não é montar vitrine. É conviver com a tese, com a execução, com os erros, com os acertos e com o tempo.
Nos apresentamos como um venture capital, mas a realidade operacional da Kadmotek é mais próxima de um club deal: sindicalizamos operações com investidores anjos, conectamos capital, conhecimento e relacionamento, e construímos juntos uma jornada de longo prazo. Esse formato tem suas particularidades, mas tem também uma grande virtude: nos permite estar muito próximos dos founders, das decisões e das inflexões reais de cada negócio.
O ano de 2025 foi emblemático nesse sentido.
Divido este artigo em três blocos: as novas investidas, o primeiro write-off da carteira e o primeiro exit internacional. Não para romantizar risco. Nem para dramatizar tropeços. Mas para registrar, com honestidade, o que significa de fato colocar capital em movimento.
1. As investidas de 2025
A tese da Kadmotek nunca foi agnóstica.
Quando alguém olha de fora e conclui que investimos em “muita coisa diferente”, normalmente isso diz mais sobre a falta de contexto do que sobre ausência de foco. Nossos vetores hoje estão cada vez mais claros: Educação, Web3 e Fintechs. Em alguns casos, essas fronteiras inclusive se cruzam. Em outros, a exceção confirma a convicção.
MAIA
A grande exceção — e ao mesmo tempo uma das decisões mais fáceis de defender — foi a MAIA.
A empresa tem como primeiro alvo trabalhar com pessoas com deficiência intelectual ou algum tipo de transtorno de aprendizagem. Não é apenas uma edtech tentando ocupar mais uma prateleira de mercado. Existe ali uma camada de propósito, de dor real e de transformação concreta, que torna impossível reduzir essa investida a um racional frio de planilha.
Já acompanho há anos o trabalho das founders, e foi simplesmente impossível ignorar esse projeto.
A tese da Kadmotek nunca foi investir por moda. Sempre houve uma busca por negócios que pudessem gerar impacto real, com tecnologia como instrumento de escala. No caso da MAIA, a dimensão educacional vem antes de qualquer outro enquadramento. E isso, para mim, não diminui a potência da tese. Ao contrário, a fortalece.
Também foi uma operação importante porque refletiu bem o nosso modelo: nos apresentamos como venture capital, mas, na prática, operamos como um club deal que sindicaliza investimentos com anjos. E essa foi uma operação bem-sucedida justamente nesse formato, reunindo investidores que entenderam não apenas o potencial do negócio, mas a qualidade humana e executiva de quem está à frente dele.
LEADFY
A LEADFY tem uma daquelas histórias que reforçam o quanto investir é, antes de tudo, acompanhar jornada.
Em 2022, quando participei do programa de aceleração da StartLaw, conheci Aurélio Araújo, até então na C7 Auto. Desde então, acompanhei por mais de dois anos a incubação e a evolução desse time do Centro-Oeste, formado por Aurélio Araújo, Alfredo Moreira e Eldon Clayton.
Com a mentoria de Yuri Gitahy, eles me impressionaram mês após mês.
A LEADFY é uma martech com infraestrutura para geração e qualificação de leads, hoje com forte atuação na indústria de veículos. Mas o ponto que mais me chamou atenção nunca foi apenas o mercado endereçável ou a camada comercial da solução. Foi a forma como esse time construiu o negócio. São, provavelmente, a primeira empresa verdadeiramente AI First que acompanhei de perto com esse grau de consistência.
Não foi um caso de “vi uma startup interessante e resolvi investir”. Foi um caso de observação prolongada, convivência com a evolução do time, leitura de execução e confiança construída com o tempo. No ano passado, tive o prazer de me tornar investidor deles.
LEVERPRO
A história com a LEVERPRO é mais um exemplo de como relacionamento de longa data costuma revelar mais do que qualquer pitch deck.
Em 2023, me tornei conselheiro por conta da Bossa Invest, onde sou co-investidor via pool fintech. Dali em diante foram dois anos de jornada ao lado desse founder que se autointitula, com o humor peculiar dos empreendedores intensos, um “psicopata”.
Brincadeiras à parte, a energia e a determinação do Alysson Guimarães são realmente contagiantes. Fomos para SXSW, UK Fintech Week, São Carlos, e tenho certeza de que ainda iremos para muitos outros lugares. A velocidade com que ele evolui, absorve, executa e volta com uma versão melhor do negócio é de se tirar o chapéu.
No ano passado, tive a oportunidade de me tornar investidor direto no cap table da LEVERPRO, com a convicção de que, além do retorno financeiro, existe ali uma troca contínua de conhecimento. E isso, para mim, sempre foi parte relevante da equação.
BITSHOPP
Com a BITSHOPP, a história foi de timing.
Em 2022 tive a oportunidade de investir nessa empresa de blockchain as a service e declinei. À época, preferi acompanhar. Nem sempre o “não” é falta de convicção. Às vezes é apenas a leitura de que ainda não é a hora.
Três anos depois, acompanhando a trajetória e a resiliência de Marcos Mocatino, vendo a evolução da plataforma e observando que este era um dos raros casos capazes de dar suporte a uma grande instituição financeira brasileira, não tive como resistir ao convite de investir.
O que me fez entrar não foi apenas a tecnologia. Foi a combinação entre persistência, entrega e validação de mercado. Em Web3, há muita promessa e pouca cicatriz. Eu prefiro founders que já passaram pela cicatriz.
FENYNX
Conheci Lucas Montanini em 2020. De lá para cá, já foram dois exits na trajetória desse empreendedor. Lucas tem algo raro: é um cara orientado a negócios, com o DNA de testar rápido, jogar fora, refazer e seguir. Em certos momentos, parece o Ayrton Senna dirigindo na chuva.
Fomos juntos ao Fintech Americas, em Miami, e ali tivemos um pequeno gostinho do que acontece na América Latina — e do quanto nós, brasileiros, ainda seguimos isolados em alguns circuitos. Assistimos a palestras falando sobre o PIX e o Open Finance brasileiros, mas o Brasil era quase um fantasma na sala. A tecnologia estava presente no discurso. Os representantes brasileiros, nem tanto.
Foi impossível não sair dali com uma inquietação maior sobre ambição global.
A confiança desse founder em construir um projeto com vocação internacional foi exatamente o que me fez confiar em investir nessa startup. Não era apenas uma tese de produto. Era uma tese de postura.
2. O primeiro write-off
Nenhum portfólio amadurece só com anúncio de investida.
Também amadurece quando você reconhece, com transparência, que uma tese não avançou como imaginava.
Meu primeiro write-off foi a BWS – Blockchain Web Services.
Em dezembro de 2023 fui convidado a investir nessa startup. Havia no cap table ninguém menos que o Banco do Brasil, e enxerguei ali não apenas uma oportunidade de investimento, mas também uma ponte potencial com a Quadra.trade e uma forma de ampliar ainda mais minha exposição prática ao universo de Web3.
O ano de 2024 foi uma jornada desafiadora.
Houve muitas trocas com o time técnico, várias viagens a Brasília, articulação com investidores, tentativas de destravar caminhos e, em certo momento, chegamos inclusive a trazer um novo sócio para a operação. Cada etapa parecia exigir uma nova dose de energia. Cada avanço vinha acompanhado de um novo obstáculo.
Conheci muita gente boa e muita gente séria que confiou nesse projeto.
Mas nem toda história termina em exit. Algumas terminam em aprendizagem cara.
Uma série de fatores levou ao encerramento dessa jornada, e o write-off foi reconhecido no início de 2025. Não há prazer em registrar isso. Mas há maturidade em não esconder.
Portfólio sem perda não é excelência. É falta de transparência.
E, em early stage, transparência continua sendo um ativo subestimado.
3. O primeiro exit internacional
O ano começou também com um marco importante: meu primeiro exit internacional, com a venda da Flourish Fi.
Conheci Pedro Moura em uma pizzaria em Berkeley. Daquelas coincidências que, quando você olha para trás, parecem menos acaso e mais alinhamento de trajetória. A história dele sempre me chamou atenção. De certa forma, me lembrava a do meu pai — com a diferença de que ele trocou o Rio Grande do Norte pelos Estados Unidos. Uma vida cheia de desafios, que ajudou a moldar o caráter de um founder resiliente.
Sua sócia, Jessica, filha de mãe filipina e pai mexicano, também traz uma trajetória profundamente conectada ao universo de microcrédito. Juntos, os dois queriam inicialmente criar uma ferramenta de educação financeira. No caminho, construíram algo ainda maior: um player relevante de engajamento financeiro, utilizado em seis países e agora entrando em um novo capítulo.
Esse exit teve, para mim, um peso que vai além do evento em si.
Ele representa a evidência de que a ambição internacional não precisa ficar restrita ao discurso. É possível construir relacionamento, acompanhar founders, investir fora e participar de histórias com desfecho concreto. Não se trata de glamourizar saída. Muito menos de transformar liquidez em slogan. Mas de reconhecer que, para quem vem construindo pontes entre Brasil, Reino Unido e Estados Unidos, esse foi um marco simbólico importante.
Todo investidor gosta de anunciar investida.
Mas o portfólio começa a ganhar outra densidade quando você consegue olhar para ele e enxergar três coisas ao mesmo tempo: entrada, perda e saída.
Conclusão
Capital em movimento não é apenas capital investido.
É capital testado.
É capital que encontra founder bom, founder resiliente, founder global. Mas também é capital que convive com fricção, com erro de leitura, com contexto adverso e com a necessidade de reconhecer que nem toda tese vai amadurecer.
Em 2025, a Kadmotek seguiu ampliando sua presença nos vetores que fazem sentido para a nossa leitura de futuro: Educação, Web3 e Fintechs. Fizemos novas investidas, reconhecemos nosso primeiro write-off e participamos do nosso primeiro exit internacional.
Nada disso, isoladamente, define um portfólio.
Mas tudo isso junto começa a definir uma trajetória.
No fim do dia, investir não é montar uma coleção de logos.
É construir convicção com transparência.
E seguir em movimento.



