"Quando o Estado tenta eliminar todos os riscos, frequentemente elimina também as oportunidades que criam prosperidade e mudança."
Milton Friedman
Novembro foi o mês em que o mercado cripto brasileiro ganhou contornos oficiais. As novas regulamentações do Banco Central marcaram o início de um novo ciclo — um que traz segurança e legitimidade, mas também questionamentos sobre o futuro da inovação. O equilíbrio entre controle e criatividade volta ao centro do debate: até que ponto a busca por estabilidade pode limitar o potencial transformador das tecnologias descentralizadas?
O tema não é novo, mas a forma como se manifesta hoje é inédita. Estamos diante de uma reorganização dos papéis — do Estado, das instituições financeiras, das fintechs e dos construtores do ecossistema Web3. E, nesse embate, o Brasil parece oscilar entre protagonista e espectador.
Bloco global
No cenário internacional, novembro foi um mês de cautela e realinhamento. Nos Estados Unidos, os discursos dos membros do Federal Reserve reforçaram a ideia de que o ciclo de altas de juros está próximo do fim. A inflação mostra sinais consistentes de desaceleração, enquanto o mercado de trabalho começa a se ajustar sem destruição abrupta de empregos.
Com isso, os yields dos Treasuries recuaram e os ativos de risco respiraram melhor. A percepção de que o “pico dos juros” ficou para trás trouxe um movimento de recuperação nas bolsas, especialmente nos setores de tecnologia e infraestrutura digital. O foco agora se desloca para 2025: quando – e em que ritmo – virão os cortes de taxa?
Bloco Brasil
Por aqui, o ambiente seguiu marcado pela tensão fiscal e pelo desafio de transformar discurso em execução. O governo buscou reforçar a narrativa do compromisso com o equilíbrio das contas públicas, mas os números mostram que o caminho ainda é longo. A curva de juros locais manteve-se pressionada, refletindo o ceticismo dos investidores quanto à capacidade de entrega do novo arcabouço.
Enquanto isso, o Real oscilou em linha com as moedas emergentes e o mercado acionário mostrou seletividade — com destaque para empresas ligadas à economia interna. Nesse contexto, a agenda regulatória do Banco Central para o mercado cripto surge quase como um contraponto: pragmática, técnica e voltada à construção de bases sólidas para o futuro da digitalização financeira.
Bloco cripto
As novas normas do Banco Central deram o tom do mês no universo cripto brasileiro. De um lado, representam um passo importante rumo à legitimidade e à transparência – algo necessário para combater fraudes e profissionalizar o setor. De outro, acendem um alerta: o excesso de restrições pode acabar sufocando justamente o que fez desse mercado um motor de inovação.
O ciclo das fintechs e da Web3, marcado por acesso, autonomia e experimentação, corre o risco de ser substituído por um modelo excessivamente institucionalizado. Ninguém discute a importância do combate ao crime financeiro, mas há uma sensação incômoda de que, ao tentar proteger o sistema, poderemos inibir o surgimento dos próximos protagonistas da revolução digital. A questão é: como regular sem inviabilizar o novo?
Bloco Kadmotek
Novembro também foi um mês intenso de presença física no ecossistema — algo que, para mim, segue sendo insubstituível.
Web Summit – Lisboa
Participei pela primeira vez do Web Summit, integrando a comitiva do SEBRAE Paraná. Foi uma experiência extremamente enriquecedora, tanto para aprofundar relações no mercado europeu quanto para compreender melhor as dinâmicas específicas de Portugal como hub de inovação, atração de talentos e startups. Mais do que o conteúdo, o valor esteve nas conexões e na leitura de contexto.
Acompanhei a MAIA Educacional em um ambiente genuinamente inclusivo. Foram mais de 1.500 participantes, vindos de todos os estados brasileiros e também de diversos países de língua espanhola e portuguesa. Ver, na prática, o impacto de soluções educacionais inclusivas reforça a convicção de que inovação só faz sentido quando gera transformação real.
Novembro também marcou um momento histórico. No dia 26/11, realizamos o lançamento do primeiro token de equity negociável na infraestrutura blockchain da B3, em parceria com a própria Bolsa do Brasil.
A operação, liderada por Lucas Montanini e Luan Rodrigues, foi estruturada para financiar a Fenynx Lending & Credit, startup brasileira que utiliza ativos digitais como garantia em operações de crédito. Trata-se de um avanço concreto na integração entre mercado tradicional e ativos digitais, ampliando liquidez, transparência e acesso.
O que nasceu como BitSampa evoluiu para a Blockchain Conference Brasil. A expansão em relação ao ano anterior foi evidente, tanto em escala quanto em qualidade dos painéis. Além do conteúdo, tive a oportunidade de estar com Alexandre Senra, uma das grandes referências do setor, reforçando diálogos fundamentais para o amadurecimento do mercado.
Reflexões finais
A regulação é necessária — mas seu desenho precisa refletir o espírito de inovação que ela pretende proteger. O risco agora é matar o mensageiro em vez da mensagem. O cripto nasceu para descentralizar poder, distribuir oportunidades e reinventar a confiança. Se perdermos isso em nome da burocracia, teremos avançado em forma, mas recuado em essência.
O desafio do Brasil será encontrar o ponto de equilíbrio: garantir segurança sem sufocar o engenho. Porque toda grande revolução precisa de liberdade — inclusive a digital.
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