BLOCKCHAIN? PORQUE A CHINA NOVAMENTE ACELERA NA FRENTE

Imagine o presidente do seu país, reunindo todas as lideranças públicas e privadas e declarando oficialmente que blockchain é uma das prioridades estratégicas da nação. Uma pena não estarmos falando de Brasil, mas de Xi Jiping, presidente da República Popular da China, em um anúncio onde afirma que esta tecnologia será um importante pilar no desenvolvimento industrial da próxima década e que a China deve se posicionar como um “rule-maker” e não como um “follower”.

 

Isso aconteceu no decorrer da minha visita à China no final de 2019 e teve ampla repercussão na mídia. Confesso que não consegui entender imediatamente o que representava. Uma das principais dificuldades neste tema não diz respeito a blockchain em si, mas no desenvolvimento de uma rede em que todos concordem em empregar a tecnologia. É difícil de escalar na prática porque requer muita cooperação e “trust” na sua construção.

 

E este tem sido o esforço principal dos inúmeros consórcios e associações criadas nos últimos anos para tentar legislar ou definir um padrão sobre o assunto (R3, Hyperledger, Ethereum, B3i, entre outros, inclusive os chineses China Ledger e FISCO). E o que vem de verdade ocorrendo é que diversos padrões estão sendo definidos, cada um com suas fortalezas e com suas contradições. Muito foco em performance e em funcionalidades especificas, muitas iniciativas isoladas, mas com pouca integração e com muitas oportunidades em definição de uma direção e uso comuns. Alguns dizem que estamos construindo “robustas” torres de Babel.

Vamos combinar que fica muito mais fácil quando o líder da nação vem a público e conta com convicção que esta é uma prioridade de longo prazo e que destinará investimentos dos planos quinquenais do país para apoiar o seu desenvolvimento.

Como resultado, toda a mídia passa a bombardear o assunto, companhias privadas e órgãos estatais começam a privilegiar o tema e gestores de alta e baixa gerência são forçados a entender mais sobre a tecnologia.

 

A China entendeu muito bem que o sucesso da sua economia, baseada em livre mercado, acabou privilegiando o seu forte crescimento nos últimos anos, mas com gaps em supervisão e regulamentação. E a tecnologia blockchain está sendo vista como uma grande oportunidade na construção de confiabilidade em produtos e serviços chineses, na desintermediação, na busca de maior eficiência e no combate à corrupção, passando a ter um papel fundamental na evolução da governança do estado e na indústria. Esta parece atualmente ser a única grande potência a levar a sério a definição de uma política governamental para blockchain e que considera uma estratégia que envolve tanto o setor público como o setor privado.

E visão de longo prazo sempre é fundamental.

 

Blockchain, a nova muralha digital?

Na verdade, já começou ...

A tecnologia blockchain já tem sido objeto de estudo por órgãos do governo em cidades como Shangai, Beijing, Shenzen e Chongqing. E vem sendo adotada por diversas empresas chinesas, com muitos exemplos práticos:

 

• Na rede 7fresh de supermercados, do gigante JD, blockchain é utilizado para garantir a origem dos seus produtos, implementando controles em toda a cadeia de suprimentos (food safety).

 

• A empresa Bright Food, baseada em Shangai e produtora de derivados de leite, implementou um sistema (powered by VeChain Thor blockchain), que permite o rastreamento dos seus produtos deste a fazenda até a mesa do consumidor.

 

• China Mobile, China Unicom e China Telecom, as gigantes operadoras de telecom do país, pilotam um projeto conjunto com três objetivos principais: gerenciamento de identidade, combate a fraude e maior eficiência no roaming. China Telecom quer ir além e integrar blockchain na operação de sua rede, lançando o blockchain SIM card, que será uma “chave para o mundo descentralizado”, capaz de habilitar uma rede de transmissão de valores digitais.

• Mercedes-Benz está lançando uma plataforma piloto em Beijing para garantir a correta avaliação de carros usados, baseado em blockchain e IoT.

 

• Alibaba, Tencent e Baidu já estão lançando plataformas de saúde, baseadas em blockchain, que garantem o armazenamento seguro de informações médicas como diagnósticos, tratamentos e prescrições.

 

E agora, depois das declarações de Xi Jiping, dá para ver que isto está sendo levado muito a sério. Novos protocolos blockchain já foram divulgados nos últimos meses. Ant Financial e Baidu lançaram blockchains que rodam “as a service”, garantindo fácil implantação e baixo custo operacional. Baidu afirma que seu novo serviço, denominado “Xuperchain”, chega a ser 20 vezes mais rápido do que o do seu concorrente Ethereum. Já Ant Financial confirma que a sua plataforma atingirá 100.000 TPS.

 

No entanto, para acompanhar o entusiamo chinês no assunto, ainda existe um gap no número de profissionais e desenvolvedores qualificados em blockchain, quando comparado aos Estados Unidos, e existe muito espaço para programas de formação desta tecnologia nas universidades chinesas. Ou seja, muito mercado para novos talentos neste segmento no país.

Blockchain com características chinesas?

A campanha anti-corrupção deflagrada pelo governo nos últimos anos indica um movimento de maior centralização do poder estatal. E a adoção de blockchain, geralmente, tem o efeito oposto – a tecnologia geralmente reduz o poder central empoderando usuários. Mas aqui, no caso chinês, a adoção de blockchain como parte da estratégia do país de combate à corrupção, reduz o poder estatal de agências regionais e servidores, paradoxalmente, garantindo ao governo federal maior controle no estado.

 

Em 2019, foram definidas leis federais que regulam o uso da tecnologia e que definem como mandatório que, “entidades ou nodes” que venham a oferecer serviços de informação baseados em blockchain, devem coletar nomes, national Ids e números telefônicos dos seus usuários. Definitivamente não haverá anonimato. Logo, apesar da China enxergar um futuro com blockchain e com processamento distribuídos através de “nodes”, haverá certo nível de controle, pois quem roda os “nodes” estará sujeito a endosso das autoridades governamentais.

A Moeda, para o governo chinês, é uma questão de soberania.

E no país que priorizou o blockchain, transações em cripto-moedas foram definitivamente banidas do país em 2017, por questões de risco de fraudes e de fluxo não controlado de capitais. Certamente, a “Libra” do Facebook nunca será alternativa por lá.

 

No entanto, o Banco Central da China está apostando em uma nova corrida: lançar uma moeda digital que irá desafiar o dólar americano, em um momento positivo em que dois terços do planeta são majoritariamente parceiros do país.

Portanto, lançar o “Digital RMB” ou o “Yuan Digital” é um movimento bastante lógico.

O Digital RMB permitirá aos chineses construir sua própria rede baseada na sua moeda para pagamentos nas suas relações comerciais com parceiros de seu comércio exterior, principalmente para matéria-prima. No período pós-guerra, os Estados Unidos alavancaram o dólar como “moeda mundial”, a partir das exportações de matéria prima e petróleo. A China pretende pacientemente seguir a mesma estratégia com sua moeda digital.

 

E também no âmbito da moeda, o movimento do Banco Central (PBOC – Popular Bank of China), trará maior controle da economia, pois a moeda digital deverá substituir o papel moeda, que tem maior controle pelo regulador. Em um país, onde companhias privadas estão na prática digitalizando a moeda e viabilizando pagamentos através de plataformas mobile, como Alipay e WeChat Pay, nas quais o Banco Central tem menos controle, este passo é muito importante.

 

Mas quando se fala do uso de blockchain para fins de moeda e pagamentos, ainda existem pontos a serem desenvolvidos, em função da escala do mercado chinês. Ethereum, por exemplo tem uma performance limitada a 20 transações por segundo (TPS), face a necessidade de confirmação entre nodes na rede. O Banco Central chinês define que um sistema para suportar a sua moeda digital deverá ser capaz de suportar 300.000 TPS. Portanto se este sistema será similar a blockchain, performance será um desafio, e certamente algum nível de controle centralizado será necessário.

Fica a dúvida, “too big to blockchain”?

Inclusão, palavra de ordem

Para estas simpáticas senhoras que me convidaram para uma foto em Beijing, a tecnologia blockchain é invisível, seja quando vão ao supermercado, seja quando compram um produto alimentício de boa qualidade ou seja fazendo uma chamada através do celular. E é assim a tecnologia na China, simplesmente está a disposição, invisível.

 

Gosto de repetir a minha percepção de que na China, a despeito de nossos vieses ocidentais, a tecnologia tem um forte propósito: inclusão. E empregar tecnologia de maneira inteligente, de forma coesa e com planejamento é um fator importantíssimo no desenvolvimento do país e por consequência na melhoria da qualidade de vida da sua população. Certamente blockchain é só um dos muitos exemplos que temos por lá.

 

Parece mesmo que o tempo passa muito rápido na China.

>> Artigo originalmente publicado em 2020, por João Bezerra Leite, mas que permanece atual.

 

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