Quando uma história de 15 anos muda uma tese de investimento

Quando uma história de 15 anos muda uma tese de investimento

Bastidores da Tese Kadmotek — Capítulo 2: Maia

Sempre que acompanho o debate político brasileiro, especialmente em um ambiente cada vez mais polarizado, uma ausência me incomoda. Falamos muito sobre quem governa, sobre os erros de um lado e as responsabilidades do outro. Mas falamos pouco, com a profundidade necessária, sobre aquilo que realmente pode transformar um país: a educação.

Não faço essa afirmação a partir de uma análise teórica.

Sou prova viva disso.

Venho de uma família humilde. Fiz o ensino fundamental em escola pública e cursei o ensino médio à noite, em uma escola técnica — naquele período, a formação profissional pesava tanto que o currículo praticamente não contemplava disciplinas básicas que hoje consideramos indispensáveis. Mais tarde, ingressei em uma universidade pública para estudar Matemática, mas não concluí: minha trajetória profissional ganhou intensidade e acabei seguindo outro caminho. A educação, porém, já havia realizado a transformação mais importante — ampliar o horizonte do que eu acreditava ser possível para a minha vida.

Foi essa base que me levou à tecnologia. Foi a tecnologia que me permitiu empreender. E foi o empreendedorismo que, décadas depois, me trouxe até o venture capital.

Por isso, investir na Maia nunca foi apenas uma decisão de diversificação de portfólio. Foi, em alguma medida, um reencontro com a minha própria história — e a oportunidade de participar da construção de uma EdTech desde a origem, transformando em tecnologia uma metodologia que acompanhei durante quinze anos.

A Maia não chegou à Kadmotek por meio de um pitch. Antes da startup, existia uma longa história de transformação. E eu tive o privilégio de assistir a essa história acontecer.

Antes da Maia, existia o Espaço Mosaico

A origem dessa trajetória está no trabalho de Edna Maia, pedagoga especializada na educação de crianças e jovens com deficiência intelectual e transtornos de aprendizagem.

Durante sua atuação na rede pública de Diadema, na Grande São Paulo, Edna participou de uma das primeiras iniciativas municipais voltadas à inclusão de alunos com deficiência nas classes regulares. Hoje, a inclusão escolar está presente em leis, políticas públicas e discursos institucionais. Naquele período, ainda era necessário convencer muitas pessoas de que esses jovens tinham o direito — e, principalmente, a capacidade — de aprender ao lado dos demais alunos.

Paralelamente, Edna atuava em uma organização não governamental que apoiava famílias e realizava atendimentos particulares para complementar a renda. A experiência cotidiana lhe mostrava que as dificuldades não se limitavam ao conteúdo escolar: era preciso adaptar materiais, apoiar professores, orientar famílias, fortalecer a autoestima dos jovens e criar condições para que conquistassem autonomia dentro e fora da escola.

Do outro lado dessa história estava sua filha, Leide Maia. Formada em História, Leide também havia construído uma trajetória ligada à educação e à cultura: teve uma escola de dança e criou uma empresa voltada à preservação da memória institucional de organizações.

Em determinado momento, fez à mãe uma pergunta aparentemente simples:

— O que a senhora vai fazer quando se aposentar?

A pergunta provocou uma reflexão que mudaria o destino das duas. Edna havia acumulado décadas de experiência e prática pedagógica. Leide enxergou que esse patrimônio não poderia simplesmente desaparecer quando a mãe deixasse a rede pública.

Foi dessa combinação entre conhecimento pedagógico, experiência empreendedora e uma relação familiar muito particular que nasceu o Espaço Mosaico.

Um espaço que ultrapassou o atendimento individual

Desde o início, o Mosaico não foi concebido apenas como um local para atendimentos individuais.

Edna e Leide compreendiam que a aprendizagem não ocorre de forma isolada. Para muitos jovens com deficiência intelectual ou transtornos de aprendizagem, o desenvolvimento depende da combinação entre conteúdo acadêmico, convivência, segurança emocional e participação social. Por isso o trabalho foi estruturado em grupos multidisciplinares, materiais didáticos adaptados, atividades artísticas e experiências práticas voltadas à autonomia.

Os jovens estudavam conteúdos escolares, mas também aprendiam a circular pela cidade, discutiam notícias e desenvolviam habilidades para o mercado de trabalho. E criavam vínculos com outros jovens que enfrentavam desafios semelhantes, mesmo frequentando escolas diferentes.

Esse último aspecto sempre me chamou a atenção. O Espaço Mosaico não construiu apenas uma metodologia de aprendizagem.

Construiu uma comunidade.

Enquanto muitas famílias viviam a inclusão de maneira solitária, o Mosaico criou um ambiente em que jovens, pais e educadores compartilhavam dificuldades e conquistas.

Essa história não me foi contada em uma reunião com investidores. Eu assisti a ela.

E quinze anos é tempo suficiente para ver uma pessoa inteira acontecer.

Acompanhei adolescentes que chegaram dependentes de quase tudo — de transporte, de rotina, de alguém que traduzisse o mundo para eles — e que hoje são adultos que trabalham, decidem, discordam e sustentam as próprias opiniões. Vi famílias que chegavam esperando apenas que o filho concluísse o ensino fundamental assistirem à formatura dele na universidade. Vi mães que carregavam culpa passarem a carregar orgulho.

Não é uma história de startup. É uma história de tempo. E tempo é o único ativo que nenhuma tecnologia consegue acelerar.

Por isso, quando chegou o momento de avaliar o potencial daquele trabalho, eu não estava diante de uma hipótese não comprovada. Estava diante de uma metodologia que havia produzido resultados concretos, repetidamente, ao longo de quinze anos.

O que ainda não existia era a startup.

E eu ainda não imaginava que aqueles quinze anos mudariam também a tese da Kadmotek.

Quando uma editora se revelou pequena demais

A Maia começou a nascer em uma conversa aparentemente comum. Edna e Leide compartilharam comigo que estavam pensando em criar uma editora.

A ideia fazia sentido dentro da realidade do Mosaico. Havia anos elas adaptavam materiais de diferentes sistemas de ensino para que seus alunos pudessem acompanhar os mesmos conteúdos trabalhados com os colegas. Cada adaptação exigia conhecimento pedagógico, sensibilidade e muito trabalho: não bastava simplificar um texto, era necessário compreender qual conceito precisava ser preservado, quais barreiras impediam a aprendizagem e como reorganizar o conteúdo sem infantilizar o aluno ou esvaziar o conhecimento. Com o tempo, esse trabalho havia produzido um acervo relevante de materiais próprios. Organizá-lo em livros parecia natural.

Minha reação, porém, também foi imediata:

— Vocês estão loucas.

A frase saiu em tom de provocação, mas refletia uma convicção verdadeira. Uma editora poderia organizar e distribuir livros, ampliar o alcance de determinados conteúdos. Mas ainda seria uma resposta pequena diante de tudo o que elas haviam construído.

Eu não enxergava apenas uma coleção de materiais didáticos. Enxergava uma metodologia de adaptação pedagógica: quinze anos de conhecimento acumulado e a experiência de trabalhar com alunos que frequentavam escolas distintas e precisavam acompanhar conteúdos, avaliações e dinâmicas muito diferentes entre si.

Enxergava também algo que dificilmente apareceria em um livro: a capacidade de criar comunidades. Esses grupos ajudavam a manter os alunos engajados, ampliar o repertório e fortalecer a confiança necessária para continuar aprendendo.

Além disso, por meio do trabalho voluntário junto à Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, Edna e Leide participavam de uma rede presente em 22 estados brasileiros — o que ampliava enormemente sua compreensão sobre as dificuldades enfrentadas por famílias e educadores em realidades muito distintas.

Aquela combinação de metodologia, conteúdo, experiência prática e comunidade não poderia ficar restrita a um endereço físico ou a uma coleção de livros. Na minha visão, era o momento de o Espaço Mosaico criar um spin-off.

Era o momento de nascer uma startup.

O sonho de uma pedagoga precisava ganhar escala

Durante boa parte de sua formação, Edna conviveu com uma visão educacional que subestimava pessoas com deficiência intelectual — muitos educadores sequer consideravam que esses jovens pudessem concluir o ensino médio ou ingressar em uma universidade. Sua trajetória foi construída no enfrentamento dessa crença: durante décadas, desenvolveu formas de tornar o aprendizado acessível sem retirar do estudante o direito de compreender assuntos complexos.

O modelo presencial, porém, impunha um limite evidente. Por mais consistente que fosse o trabalho, o número de pessoas atendidas continuaria condicionado ao espaço físico, à equipe e à localização das famílias.

O desafio, então, era transformar conhecimento tácito em metodologia estruturada — talvez a etapa mais difícil na criação de uma startup baseada em conhecimento. Muito do que Edna e Leide sabiam não estava em manuais. Estava na observação, na escolha de uma palavra, na maneira de reorganizar um exercício, na percepção de que determinado jovem precisava de mais contexto enquanto outro precisava de linguagem mais direta.

Foi desse processo de formalização que surgiu a Metodologia Acessível para Inclusão Adaptada, cujas iniciais formaram o nome MAIA.

A metodologia parte de uma premissa simples, mas frequentemente ignorada pelo sistema educacional: tornar um conteúdo acessível não significa reduzir a capacidade intelectual do aluno. Significa remover as barreiras que dificultam sua compreensão — identificar as informações essenciais, reorganizar a estrutura dos textos, usar linguagem simples e respeitar diferentes ritmos. O objetivo não é criar um conteúdo paralelo, e sim permitir que o jovem acompanhe sua turma e desenvolva mais autonomia.

Essa concepção foi construída a partir da realidade. Durante anos, cada aluno trouxe uma necessidade específica e uma nova oportunidade de aprendizado para a própria metodologia. A repetição permitiu identificar padrões: quais construções de texto dificultavam a compreensão, quais recursos visuais ajudavam, como adaptar avaliações preservando aquilo que realmente deveria ser aprendido.

O que antes dependia da experiência direta das fundadoras passou a se transformar em critérios, processos e parâmetros — capazes, agora, de orientar uma plataforma tecnológica.

A Kadmotek antes do cheque

Nos últimos anos, percebi que existe uma diferença importante entre um investidor e um investidor-operador.

O investidor analisa uma empresa que já existe: avalia produto, mercado, time e preço. O investidor-operador entra antes disso, quando ainda há decisões estruturais em aberto — e assume o risco de opinar sobre elas. É uma posição menos confortável, porque não permite se esconder atrás da diligência. Se a empresa toma um caminho pequeno demais, você também foi responsável.

Na Maia, esse papel começou com uma frase malcriada dita a duas fundadoras que estavam prestes a criar uma editora.

Depois dela, a contribuição mais importante seguiu não sendo financeira. Era ajudar a transformar uma experiência consolidada em um negócio de tecnologia: organizar a proposta de valor, compreender quem seriam os usuários da plataforma, avaliar modelos de negócio e aproximar as fundadoras de profissionais capazes de contribuir para a arquitetura do produto.

Também era necessário separar duas organizações que, embora conectadas pela mesma origem, teriam missões diferentes. O Mosaico seguiria como o ambiente em que a metodologia é vivenciada e validada com jovens e famílias; a Maia nasceria como empresa de tecnologia, para levar esse conhecimento a escolas, professores e instituições em escala muito maior.

Essa distinção era fundamental: a startup precisava preservar o patrimônio do Mosaico sem depender da operação presencial — e sem se afastar da prática que deu legitimidade à metodologia.

A rodada de investimento viria depois.

Primeiro, era necessário ajudar a Maia a nascer.

Qual conhecimento essa Inteligência Artificial está potencializando?

Existe uma frase que se tornou comum no ecossistema de startups: “estamos construindo uma empresa de Inteligência Artificial.” Ouvi isso dezenas de vezes nos últimos anos.

Olhando para a trajetória da Maia, percebi que a pergunta correta é outra: qual conhecimento essa Inteligência Artificial está potencializando?

A tecnologia, sozinha, nunca foi o diferencial da Maia. Quando começamos a estruturar a startup, a IA sequer ocupava o protagonismo de hoje. O ativo mais valioso era o mesmo construído ao longo de quinze anos: a metodologia.

Na prática, a educação inclusiva baseada em IA funciona assim na Maia: a partir da análise pedagógica do aluno, a plataforma apoia a construção de conteúdo personalizado para ele — o mesmo capítulo, adaptado de formas diferentes para estudantes com necessidades diferentes. O que a IA não faz é publicar sozinha. Toda saída passa por curadoria de especialistas, porque estamos falando da educação de jovens, e esse é um ambiente em que não cabe alucinação. Um erro factual em uma peça de marketing custa constrangimento. Em um material didático, ele ensina algo errado justamente a quem já enfrenta mais barreiras para aprender.

Ou seja: a IA não decide como um conteúdo deve ser adaptado — quem estabelece esses critérios é a metodologia. O conhecimento continua sendo humano. A tecnologia amplia sua capacidade de alcance.

A vantagem competitiva dificilmente estará na Inteligência Artificial. Os modelos evoluem rapidamente e as ferramentas se tornam cada vez mais acessíveis. O verdadeiro diferencial está naquilo que cada organização construiu antes da IA existir.

A ordem importa: da experiência aos dados

Ao longo de quinze anos, o Mosaico não acumulou apenas histórias inspiradoras. Acumulou padrões. Quando esse conhecimento passa a ser organizado e documentado, ele deixa de depender da experiência individual de seus criadores.

Transforma-se em dados.

E dados organizados orientam tecnologia. A metodologia virou a base da arquitetura de dados da plataforma; essa arquitetura orienta o comportamento da IA; e a IA acelera um processo cuja lógica já havia sido validada pela prática.

Menos atraente para quem procura o próximo hype. Muito mais sólida para quem pretende construir uma empresa duradoura.

Quando o mundo reconheceu o que o Mosaico já havia construído

Curiosamente, o reconhecimento externo começou antes mesmo da criação da startup.

Nos últimos anos, a convite da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD), o Espaço Mosaico levou sua experiência às Nações Unidas, em Nova York e Genebra. Leide Maia compartilhou com educadores de diferentes países a metodologia construída ao longo de mais de quinze anos de atuação em educação especial.

Nessas mesmas missões, acompanhou a trajetória de Georgia Baltieri, uma das primeiras professoras com síndrome de Down a lecionar em curso de pós-graduação para profissionais da saúde, promovido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz — história que ganhou repercussão nacional em reportagem do Fantástico.

Georgia representa mais do que um caso de sucesso. Ela simboliza o que acompanhei durante todos esses anos: inclusão não se mede pelo acesso à escola, e sim pela capacidade de construir trajetórias que antes pareciam impossíveis.

Esses resultados não nasceram da tecnologia. A tecnologia veio depois.

Primeiro veio a metodologia.

O tamanho real do problema

Em 2025, a Maia deixou de existir apenas como ideia: lançamos a plataforma na Bett Educar Nordeste e, na mesma época, participamos do Startup Summit, em Florianópolis. Em 2026 veio a Bett Brasil, em São Paulo, a maior feira de tecnologia para educação da América Latina.

Foi interessante perceber públicos diferentes chegando à mesma conclusão. Educadores enxergavam uma metodologia capaz de ampliar a inclusão. Investidores percebiam potencial de escala.

Eu via as duas coisas ao mesmo tempo.

Vale olhar o tamanho do problema. Só na educação básica brasileira existem cerca de 47 milhões de matrículas, com uma estimativa de aproximadamente 2 milhões de estudantes com deficiência intelectual, autismo ou transtornos de aprendizagem. É um mercado que movimenta algo em torno de R$ 230 bilhões.

Não cito esses números para vender a Maia. Cito porque eles explicam por que a adaptação curricular deixou de ser uma questão de sensibilidade e passou a ser uma questão de infraestrutura. Nenhuma rede de ensino resolve acessibilidade educacional nessa escala adaptando conteúdo manualmente, professor por professor.

A rodada — e a distância entre discurso e capital

Foi somente depois de todo esse processo que liderei a rodada de investimento da Maia.

Hoje dividimos essa jornada com a RAFF Ventures e um grupo de investidores-anjo — alguns já acompanhavam o portfólio da Kadmotek há anos, outros entraram por enxergarem o potencial da empresa.

Como em toda startup em estágio inicial, a captação trouxe aprendizados. E um deles foi marcante.

Durante o processo, conversei com muitas pessoas que sempre defenderam a educação como principal instrumento de transformação social e econômica do Brasil. Na teoria, havia praticamente unanimidade. Na prática, quando surgiu a oportunidade de investir em uma empresa construída para ampliar o acesso à educação inclusiva por meio da tecnologia, houve uma dissonância evidente entre discurso e decisão de investimento.

Essa constatação me fez refletir bastante — em parte porque repete, na escala do capital privado, exatamente aquilo que me incomoda no debate público. Falamos de educação como prioridade e, na hora de alocar recursos, priorizamos outra coisa.

E a dissonância não é exclusiva da educação. Ela aparece sempre que uma tese exige um horizonte mais longo do que o do investidor que a aplaude. É fácil concordar que algo é importante. Difícil é aceitar que o retorno virá depois do prazo que você tinha em mente.

Para o founder, isso tem uma consequência prática: elogio não é sinalização. Vale aprender a distinguir quem está admirando a sua causa de quem está avaliando o seu negócio. Só o segundo grupo chega à mesa.

Acredito que esse seja um dos papéis do venture capital.

Transformar convicções em decisões.

Felizmente, também encontramos quem enxergasse desde o início que a Maia não estava apenas construindo uma plataforma, e sim tornando escalável uma metodologia validada durante mais de quinze anos. Mais recentemente, fundos especializados em Educação passaram a incluir a startup em seu radar. Ainda não atingimos as métricas que tornam uma empresa elegível a uma rodada institucional — mas esse interesse confirma que a direção faz sentido.

Agora o desafio deixa de ser convencer o mercado de que existe uma oportunidade. Passa a ser executar, construir, crescer, entregar resultados.

A maior evolução da tese não foi mudar de setor

Quando fundei a Kadmotek, nossa tese era muito clara. Investíamos em Fintechs — e, mais do que isso, buscávamos startups que, mesmo atuando em outros segmentos, tivessem potencial para incorporar produtos financeiros e, no futuro, também se transformarem em Fintechs.

Em 2021, depois de um período nos Estados Unidos, minha visão sobre tecnologia começou a se ampliar. Foi quando mergulhei no universo Web3 e ficou evidente que blockchain, ativos digitais e infraestrutura descentralizada deixariam de ser um mercado isolado para se tornarem uma evolução natural das próprias Fintechs. Foi assim que ampliamos oficialmente nossa tese.

A Maia representa uma terceira evolução dessa mesma jornada. Não porque a Kadmotek tenha deixado de investir em Fintechs, tampouco porque tenhamos mudado o foco para Educação. Continuamos acreditando que infraestrutura financeira, crédito e Web3 representam algumas das maiores oportunidades tecnológicas dos próximos anos.

Nada disso mudou.

O que mudou foi minha compreensão sobre onde a tecnologia cria as maiores assimetrias.

Ao longo da minha trajetória como empreendedor, aprendi que toda tese de investimento precisa ter disciplina — sem disciplina, qualquer oportunidade parece extraordinária. Mas também aprendi que uma tese madura não pode virar uma prisão intelectual. Ela precisa evoluir conforme evolui a compreensão do investidor sobre o mercado.

Durante muitos anos, associei a criação de assimetrias quase exclusivamente ao mercado financeiro. Hoje enxergo diferente.

A startup não criou uma metodologia. Criou a possibilidade de escalar uma metodologia construída, validada e aperfeiçoada durante mais de quinze anos. Não investimos em Educação porque abandonamos nossa tese. Investimos porque compreendemos que determinadas metodologias também podem se transformar em infraestrutura. Infraestrutura de conhecimento. Infraestrutura de inclusão. Infraestrutura de oportunidades.

Talvez essa tenha sido a maior mudança da Kadmotek.

Descobrimos que algumas empresas escalam tecnologia. Outras escalam conhecimento.

E, muito raramente, encontramos empresas capazes de escalar transformação humana.

O próximo capítulo

No próximo capítulo, vou contar uma história completamente diferente. Será a vez da LeverPro: Alysson Guimarães, a construção de uma plataforma de FP&A em um mercado extremamente competitivo e como profundidade de produto pode superar empresas muito maiores e muito mais capitalizadas.

Porque, no final das contas, essa série nunca foi apenas sobre startups. Ela é sobre como um investidor também amadurece sua forma de enxergar inovação.

Principais aprendizados

  • Antes de existir tecnologia pode existir um ativo: uma metodologia de adaptação pedagógica validada por anos de prática é patrimônio intelectual, não apenas know-how operacional.
  • A pergunta relevante em uma startup de IA não é qual modelo ela usa, e sim qual conhecimento essa Inteligência Artificial está potencializando.
  • Em educação inclusiva baseada em IA, curadoria humana não é luxo: material didático adaptado com erro ensina algo errado a quem já enfrenta mais barreiras.
  • A ordem importa: experiência, metodologia, conhecimento estruturado, dados e só então Inteligência Artificial.
  • Investidor e investidor-operador não são a mesma coisa. O segundo entra antes, quando ainda há decisões estruturais em aberto, e assume o risco de opinar sobre elas.
  • Uma tese de investimento precisa de disciplina, mas não pode virar prisão intelectual: o que evolui não é o setor, é a compreensão sobre onde a tecnologia cria as maiores assimetrias.
  • Existe distância entre defender a educação como prioridade e alocar capital nela. Elogio não é sinalização de interesse.

Perguntas frequentes

Como um founder sabe se o que ele tem é uma metodologia ou apenas um serviço bem executado?

A pergunta que costumo fazer é se aquilo funciona quando outra pessoa executa. Se o resultado depende exclusivamente de quem criou, ainda é talento individual. Quando os critérios podem ser descritos, ensinados e repetidos por terceiros com resultado semelhante, existe metodologia — e, portanto, algo que pode virar produto.

Como adaptar conteúdo para estudantes com deficiência intelectual sem esvaziar o conteúdo?

O princípio da metodologia da Maia é que acessibilidade não é redução. Você identifica as informações essenciais, reorganiza a estrutura do texto, aplica linguagem simples e respeita ritmos diferentes — preservando o conceito que precisa ser aprendido. O erro comum é infantilizar o aluno, o que resolve a leitura e destrói o aprendizado.

Faz sentido procurar um investidor antes de a empresa existir?

No nosso caso, foi exatamente assim. Mas só funciona quando o investidor tem repertório para contribuir com produto, modelo de negócio e estruturação, e não apenas com capital. Vale menos procurar dinheiro cedo do que procurar cedo alguém que já construiu algo parecido.

Em uma startup de IA, o que um investidor olha além do modelo?

Olho a base sobre a qual a IA opera. Modelos são commodities em evolução rápida e ficam acessíveis a qualquer concorrente. O que não é replicável é o conhecimento proprietário que define os critérios de uso: dados organizados, parâmetros construídos por especialistas e validação prática acumulada.

O que muda na captação quando a startup atua em um setor associado a impacto?

Você descobre rapidamente quem defende a causa no discurso e quem a defende na alocação. É um filtro útil, ainda que desconfortável. Prefiro fechar uma rodada com menos investidores convictos do que com muitos entusiastas de tese.

Leitura para aprofundar

Se você é founder e está sentado sobre um conhecimento que ainda não virou produto, ou investidor tentando entender como uma tese evolui sem perder disciplina, estes conteúdos aprofundam o que discuti aqui:

Se você acompanha a série Bastidores da Tese da Kadmotek, compartilhe este artigo com founders, investidores e educadores. Histórias como a da Maia mostram que algumas das maiores oportunidades surgem quando conhecimento, propósito e tecnologia caminham juntos.

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