Home Office: Veio para ficar?


Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil registrava o primeiro caso oficial de covid-19. Na época a força de trabalho brasileira estava nas ruas, retornando de um típico carnaval brasileiro. De lá para cá, foi necessário realizar o distanciamento social e passaram a exercer suas atividades remotamente a maioria das empresas não essenciais.

Aumentaram os serviços de entrega de comida, restaurantes, estabelecimentos comerciais e escolas foram fechadas, nos habituamos a nova realidade em que, ao menos àqueles que dispunham de acesso e de emprego, passaram a realizar suas atividades por meio de um novo arranjo, até então impensável. No Brasil, agravados pela dura realidade da exclusão digital, segundo números da pesquisa TIC Domicílios 2018 menos 42% dos lares não possuíam computadores, a adaptação foi ainda mais difícil.

Mas como muitos setores da nossa economia a prática do home office foi acelerada pela crise sanitária diante da qual nos encontramos e a dura realidade do distanciamento e do isolamento se impôs. Agora, com algum distanciamento temporal, já é possível identificar os ganhos e perdas que o novo modelo de trabalho trouxe para a realidade brasileira.

Trabalhadores Online: o valor do tempo

Cerca de 3,8 milhões de pessoas trabalhavam online, em 2018, segundo dados do IBGE, o modelo de trabalho home office que era particularmente popular entre trabalhadores liberais, startups e e-commerce ou lojas virtuais, revelou a grande parte da população que ainda o desconhecia o valor do tempo.

A permanência em casa trouxe algumas vantagens mais evidentes para os trabalhadores como a economia do tempo no trânsito, que nas regiões metropolitanas era em média de 40,8 minutos diários, o estreitamento das relações com as famílias, que para as mulheres, sobretudo, resultou em um número maior de atividades domésticas, e, por fim, a flexibilidade na rotina diária, que resultou no aumento dos trabalhadores que se declaravam felizes. Mas se o home office trouxe alguma felicidade e praticidade, problemas específicos derivados da pandemia apontaram o aumento de casos de depressão, burnout, ansiedade e perda na qualidade de sono declarado pela maioria dos brasileiros que permaneceram em casa.

Para empregadores e funcionários, o dado mais animador vem da pesquisa realizada pela Pulses que aponta que ao menos 78% dos trabalhadores viram sua produtividade aumentar, mesmo durante o período da pandemia.

Em contrapartida outras pesquisas apresentam que 35% dos trabalhadores estão trabalhando mais de 12h de atividade por dia, o que em parte deve justificar o aumento produtividade.

Home office, um espaço de privilégio

A instabilidade emocional causada pela pandemia afligiu a todos, e a falta de preparo das residências dos brasileiros também foi um dado comum. Com a alta tendência das casas cada vez menores e contando com uma malha de banda larga de internet irregular e defasada, os brasileiros ainda tiveram que lidar com o desafio de não dispor de espaços adequados para a realização de home office: salas, cozinhas, quarto, todos os dormitórios passaram a servir a vida profissional, espaço público e privado convergiram, sem que houvesse um espaço de preparação ou de transição adequado.

Para além da falta de espaço ou de equipamentos adequados, um dos maiores desafios postos, ao menos para 1 em cada 5 brasileiros, segundo pesquisa realizada por Robert Half, foi a lida com as distrações causadas pela presença da família nas residências. Se em alguns casos a distração foi localizada nas famílias e favorecida por residências pouco preparadas, o distanciamento e a solidão diante de seus pares profissionais, colocou problemas diversos e, ainda, favoreceu a procrastinação, na medida em que as pausas mais cotidianas foram substituídas por horas consecutivas diante de telas.

O que o futuro nos reserva

Durante a pandemia 43% das empresas, segundo BTA, aderiu ao modelo de trabalho home office recorrendo, inclusive, ao aluguel de móveis de escritório, notebooks e computadores e, 80% dos gestores se dizem insatisfeitos com a transição, de acordo com pesquisa da ISE Business School. Segundo a FGV, a tendência é que haja um crescimento de 30% no home office, após o período de estabilização dos casos e retomada das atividades. Esgarçados pelos limites impostos pela pandemia, o que parece surgir no horizonte tende a ser uma modalidade híbrida de prestação de serviços, conjugando os benefícios de ambos os formatos, presencial e home office, favorecendo empresas e profissionais.

Veio para ficar?

Gigantes de tecnologia, e vários grupos de investidores, já se manifestaram para trazer uma parte considerável das equipes de volta a sua sede.

O excesso de trabalho contínuo pode nos tirar fora da realidade, e com isso perdermos o propósito de pertencer aquela empresa.

Nós somos seres sociáveis, e muitos trabalhadores sentem falta das pequenas coisas que somente no ambiente de escritório propicia.

Muitos CEOs que tenho acesso, não podem dizer de forma clara, e talvez a amostragem que tenho não seja relevante, mas em sua maioria entendem que o que deve acontecer é um modelo híbrido.

Esse modelo híbrido seria para todos? Não, mas para aqueles que além de realizar as atividades de forma eficiente, também tem habilidade de estabelecer uma comunicação efetiva.

Vamos aguardar o final dessa pandemia, e ver se a sociedade irá executar a regra de lições feitas e apreendidas, não só com hábitos de higiene, mas de acolher novos arranjos sustentáveis.

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  • One thought on “Home Office: Veio para ficar?

  1. Gilberto, excelente tema para reflexão.
    O “Home Office” não veio como opção, mas como uma necessidade de todos frente a crise sanitária a qual fomos atirados. Todos os membros de um grupo social foram obrigados a viver sobre o mesmo espaço, exercendo todas as atividades que eram executadas fora de casa. Quem pode trabalhou e ainda trabalha em confinamento com seus filhos, companheiros, cães e gatos. Vida beirou o inferno em alguns casos. Imaginem uma mulher fazendo uma reunião com seu time na empresa, na mesa da sala, ao lado do marido fazendo um Call com um gringo, com a filha pequena tendo aula on-line tudo no mesmo ambiente, e um bebê chorando no outro quarto do pequeno apartamento. Eu “estava” nesse Call, ouvindo toda a trilha sonora. Eu acredito que home office veio para ficar, mas de forma hibrida. A grande maioria dos gestores ainda não sabe trabalhar fora do modelo de comando/controle, talvez agora aprendam.

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